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As lições de um bicampeão da Libertadores

A maioria dos grandes clubes brasileiros depende, pedantemente, do dinheiro da TV para sobreviver. Tanto que muitos deles pegam adiantadas cotas de anos seguintes para taparem seus buracos financeiros.

Enquanto isso, o Sport Club Internacional tem receita com sócios-torcedores (que já ultrapassaram a barreira dos 100 mil) equivalente ao que recebe da TV por direitos de transmissão. Vem modernizando seu estádio para receber bem os torcedores. Estimula a alternância de poder na presidência do clube.

Tudo isso dá resultado em campo. Ganhar campeonatos importantes no atropelo, com salários atrasados e departamento de futebol desoganizado, hoje, somente exceções como o Flamento no Brasileirão 2009. Os últimos brasileiros campeões da América são, não por acaso, São Paulo e Internacional.

Nem tudo é perfeito, claro, e o próprio Colorado correu um risco muito grande ao trocar de treinador no meio da competição, provando que seus dirigentes ainda se comportam como cartolas amadores em algumas ocasiões – o Tricolor paulista também andou dando mancadas nos últimos tempos. O trunfo dessa troca foi que Celso Roth teve tempo, durante a parada para a Copa do Mundo, de colocar a casa em ordem. Manteve o time entre os melhores do Brasileirão e conquistou a América.

Que os adversários se espelhem nos muitos acertos do Inter, que vem chegando forte nas competições nacionais e internacionais desde o vice-campeonato brasileiro de 2005: mais dois vices nacionais (2006 e 2009), duas Libertadores (2006 e 2020), um Mundial (2010), uma Sul-Americana (2007) – além dos caça-níqueis Recopa (2007) e Suruga (2009). Além disso, em seu terreiro, o time do Saci ganhou seis dos dez estaduais.

Parabéns ao Colorado, sobretudo aos seus torcedores, que agora se igualaram aos rivais gremistas em títulos continentais e poderão passar no quesito Mundial, em Abu Dhabi, em dezembro.

Internacional bicampeão Libertadores América 2010
Que bom que lembraram de colocar o contundido Alecsandro na pose para a foto que foi eternizada ontem. O artilheiro (e bauruense) foi importantíssimo na campanha.
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Balanço da 14a. rodada do Brasileirão

Que não se atribua a vitória do líder Fluminense apenas ao fato de o Internacional atuar com os reservas – porque os suplentes do Colorado são muito bons. Estivesse o time principal do virtual campeão da América atuando no Marcanã, provavelmente também perderia para os comandados de Muricy. Conca segue jogando o fino, Mariano é a grande surpresa da lateral-direita, o Sheik Emerson está com faro de gol, a exemplo do colega Washington.

Já na Ressacada, não foi o Corinthians quem perdeu. Foi o Avaí quem ganhou. O Alviceleste é quase imbatível em Santa Catarina, não tem medo de camisa grande – tanto que bateu o Santos no Pacaembu – e tem bola para ficar entre os dez primeiros, de novo. Vaga na Libertadores é boa possibilidade, mas essa briga será forte, pois São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro, Internacional e Flamengo ainda irão participar dela. Galo e Grêmio? Deveriam, pela força de seus elencos, mas primeiro têm o dever se de desgarrarem do Z4. Nesta 14a. rodada, deram início à reação.

O Vasco precisará se entrosar, tamanhas as modificações no elenco. Se não mostra força para lutar lá em cima, não aparenta fragilidade a ponto de lutar contra o rebaixamento. A vitória fora de casa sobre o ex-Grêmio Barueri foi ótima, mas jogar como visitante em Prudente, Goiânia e Campinas não tem sido tarefa tão difícil, convenhamos.

Tarefa difícil, sim, é encarar o Vitória no Barradão. Não foi vingança sobre o Santos – pois a taça da Copa do Brasil continua na Vila Belmiro -, mas sinal de que o Rubro-Negro vai incomodar bastante, inclusive na Sul-Americana.

Alguns já chamam o Botafogo de cavalo paraguaio, mas é bom ficar muito ligado no atacante Jobson. No volante Marcelo Mattos. Em Loco Abreu, quando retornar. Na raça de Herrera. No agora goleiro de Seleção, Jefferson. Enfim, o time alvinegro está longe de ser um bando de perebas.

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Seleção Brasileira deixa boa impressão

Quantos deles estarão na foto da estreia em 2014?

O primeiro gol da nova fase da Seleção Brasileira, sob o comando de Mano Menezes, tem todos os ingredientes para animar aqueles sedentos por futebol arte. Há quanto tempo você não via um lateral cruzar quase da linha de fundo, em velocidade, e meter um arco tão perfeito na marca do pênalti? A bola de André Santos encontrou o estreante Neymar, que não tremeu e fez seu primeiro gol com a Amarelinha.

Robinho, que gera desconfiança de muitos, vestiu a braçadeira de capitão e não decepcionou em campo, com sua movimentação e boa troca de passes com os colegas. Pato fez bem o papel de camisa 9. Como disse em outra oportunidade, desloca-se com eficiência – como fez para receber primoroso passe de Ramires e marcar o segundo gol – e tem uma finalização fria e calibrada.

Ganso, legítimo canhota 10

Mas o nome do jogo foi mesmo Ganso. A camisa 10 lhe caiu muito bem. Ele confessou ter tremido um pouco, mas se não tivesse contado nem perceberíamos. Joga como um veterano. Assim como Ramires, que acho que só sai desse time quando se aposentar! Como é inteligente o novo meiocampista do Chelsea. Seu colega de meiuca, Lucas, é outro de lugar cativo, tamanha a confiança – à qual fez jus – de Mano nele.

A nova dupla de zaga foi pouca exigida, mas saiu-se bem, sobretudo David Luiz, que matou a curiosidade de muita gente e deu ótimo cartão de visitas. Criticaram Daniel Alves pela direita, mas ele ficou devendo na Copa e deveria estar compreensivelmente ansioso por mostrar serviço. E nem foi tão mal assim, apoiou bastante no primeiro tempo.

Victor trabalhou bem quando a bola chegou em sua área. Por fim, André Santos. Particularmente, não vou muito com a cara de seu futebol. Mas tiro o chapéu. O treinador o conhece bem e explorou sua melhor virtude, o apoio – o que não aconteceu com Dunga, na Copa das Confederações, quando foi muito tímido ao ataque.

Mano tá ligado: nada de oba-oba

Mano Menezes prometeu montar um time ofensivo e lembrou aquele professor de escolinha que joga a bola no meio do campo e deixa a molecada correr solta. Começa bem sua caminhada, mas que não se acomode com o atual oba-oba, fruto muito mais da forra da imprensa de se ver livre de Dunga.

O episódio negativo do amistoso Brasil x Estados Unidos foi o presente da CBF ao jornalista Alex Escobar, da TV Globo, ofendido por Dunga durante a Copa. Desnecessário e constrangedor. Que a entidade se retratasse à época. Foi apenas mais um capítulo da fortíssima reaproximação da emissora com a confedaração de Ricardo Teixeira. Tanto que a Globo, agora, deixa aparecer as marcas dos patrocinadores atrás de treinador e jogadores, durante as entrevistas.

Para terminar, há muitas pulgas atrás da minha orelha. Apesar de duvidar que as obras para a Copa de 2014 serão pontuais, se forem, há um grande problema: imagine estádios novinhos em folha em 2012, expostos ao vandalismo de torcedores mal educados durante dois anos? Haja grana para mais reformas…

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Legítimo camisa 8

Toda vez que visito um craque do passado na memória, volto na lembrança mais antiga que tenho dele. No caso de Marco Antônio Boiadeiro, é com a camisa 8 do Vasco da Gama campeão brasileiro de 1989 (o time da foto abaixo) — armava o jogo ao lado de Bismarck e William e, lá na frente, Bebeto conferia.

Essa data exclui, portanto, a melhor fase de sua carreira, no Guarani, quando jogou ao lado de Evair, João Paulo e Ricardo Rocha — na inesquecível final do Brasileirão de 1986, por exemplo (eu tinha só sete anos…). Depois, li e vi muito a respeito. Ele é uma das jóias do Brinco de Ouro.

Lembro-me de ser um jogador baixinho, de meias arriadas e de muito fôlego. Camisa 8 legítimo. Pelo menos no meu entender de como jogava esse número naquela época. Explico: é o meio termo entre o cabeça de área limitado e o armador habilidoso. O meia-direita, enfim. Hoje, todo mundo na faixa central do campo é “apoiador”.

Chutava bem, mas não era de fazer muitos gols. O mais lindo deles, que me recordo, é pela partida de ida da final da Supercopa da Libertadores de 1992, contra o Racing-ARG, no Mineirão. “Boi, boi, boi, boi, Boiadeiro, faz mais um gol pra torcida do Cruzeiro!”, gritava a galera. Pelo time azul, seus colegas de meio eram Ademir ou Douglas, Betinho e Luiz Fernando Flores. Municiou ataques distintos. Na primeira Supercopa azul, em 1991, eram Mário Tilico e Charles Baiano. No ano seguinte, os Gaúchos: Renato (ele mesmo, o atual treinador do Grêmio) e Roberto. Ainda teve a honra de, em 1993, atuar com Éder Aleixo na conquista da Copa do Brasil. No mesmo ano, ficou marcado por perder pênalti contra a Argentina, na Copa América em que Parreira convocou predominantemente jogadores que atuavam no Brasil.

Depois, disputou o Carioca de 1994 pelo Flamengo. Lá vestiu a 7 (a 8 era de Marquinhos). Dividia o meio ainda com Fabinho e Nélio. Sávio surgia como titular ao lado de Charles Baiano. Carlos Alberto Dias e Valdeir The Flash eram banco. Muitas feras juntas que viram o Vasco chegar ao tri estadual.

Veio o Timão na vida de Boiadeiro, o último grande ato. Títulos paulista e da Copa do Brasil, mas sem a titularidade garantida. Aí, começou a costumeira peregrinação até encerrar a carreira, em 1998, e ser, de fato, um criador de gado. Era um jogador simples, daqueles que treinam muito e cumprem seu papel. Segundo o Futpedia, fez sete gols em 143 partidas no Brasileirão.

Vasco Boiadeiro Cruzeiro Flamengo Seleção Guarani
O Vasco de 1989. Em pé: Mazinho, Luiz Carlos Winck, Zé do Carmo, Quiñonez, Marco Aurélio e Acácio. Agachados: William, Sorato, Boiadeiro, Bebeto e Bismarck
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Flu: pintou o favorito do Brasileirão

Um patrocinador forte, um treinador badalado e um elenco encorpado. O Fluminense já usou esta fórmula várias vezes desde que é apoiado pela Unimed. Mas, raríssimas vezes, esses três elementos deram liga como agora. A grana foi bem gasta, os reforços que já entraram em campo têm correspondido e Muricy, ao contrário do que aconteceu em sua curta passagem pelo Palmeiras, sente-se bem nas Laranjeiras.

A chegada do meia Deco é a cereja do bolo. Ele não se encaixa no perfil de atleta em decadência que retorna ao país. Acaba de disputar sua segunda Copa do Mundo, por Portugal, e não era exatamente um jogador descartado no Chelsea. Tem nível de jogador “interncional”, como dizem na Europa – por isso seu astronômico salário de R$ 750 mil que receberá no Flu.

A folha mensal do Tricolor, aliás, é o perigo da temporada: transforma o grande favoritismo em obrigação, para justificar o investimo – além de Deco, Muricy (cerca de R$ 500 mil) e Fred (R$ 400 mil) também faturam acima dos padrões do futebol brasileiro. Por outro lado, a Unimed já ameaçou fechar os cofres em fracassos anteriores e acaba volando atrás… Voltemos ao campo, pois.

O goleiro (bauruense) recuperou a posição de titular e voltou a atuar bem, como na reta final da Libertadores 2008. Tem Rafael como boa sombra.

O laterais Mariano e Carlinhos têm sido as boas surpresas, aproveitando a liberdade que o esquema com três zagueiros oferece. Esse trio defensivo, aliás, não é brilhante, não tem banco à altura, mas se entrosou bem. E todos eles (André Luis, Gum e Leandro Euzébio) são muito bons no jogo aéreo.

O meio-campo, de tão entrosado – e com vaga reservada para Deco -, deverá colocar Belletti no banco. Foi ótimo segundo volante nos tempos de Cruzeiro, Atlético-MG e São Paulo, mas perderá lugar porque o triângulo que Muricy deverá formar terá um cabeça de área (Diogo, Diguinho ou Valencia) e dois meias (Deco e Conca). A não ser que o treinador sacrifique o atacante Emerson, deixando um camisa 9 isolado na frente.

Camisa 9? Ela é de Fred. Washington é outra estrela na reserva. Como agora, jogará nas ausências do capitão tricolor, perseguido por contusões, e será ótima arma para o segundo tempo.

Conca merece menção especial. É o sonho de consumo de Muricy desde os tempos de São Paulo. Ótimo meia que foi, o técnico deve estar projetando toda sua experiência e visão de jogo no argentino, que sempre jogou o fino por aqui, desde os tempos de Vasco.

Na disputa com o Corinthians, vice-líder e também com elenco cheio de alternativas, o Flu leva vantagem por ter menos cobrança da galera, ser menos badalado na imprensa e até mesmo por ter pequeno índice de rejeição das demais torcidas – eu mesmo, rubro-negro, simpatizo com as cores e a tradição tricolores. Aliás, respeito profundamente todos os clubes brasileiros, suas riquíssimas e gloriosas histórias, seus hinos belíssimos. (Perdoe-me o parêntese, é que faço sempre o coro com quem pensa que rival se admira, se respeita, não se odeia. O que seria do Corinthians sem o Palmeiras, por exemplo?)

Enfim, olho no Flu. Que tem uma diferença fundamental em relação ao Palmeiras de 2009, que perdeu fôlego no fim do Brasileirão: tem dois ótimos meias de criação. Se um deles se contundir, o outro segura a bronca. Quando Cleiton Xavier se machucou, Diego Souza não tinha as mesmas características.

Imagem da home: arte sobre fotos de Wallace Teixeira/Photocamera