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Lelo, um ex-jogador noroestino de opinião

Entrevista com o ex-zagueiro Lelo, que acompanha o noticiário noroestino com postura crítica

Encarando o colega Julinho, em treino no Alfredão
Encarando o colega Julinho, em treino no Alfredão

Dia desses comentei a eleição da nova diretoria noroestina e a caixinha de comentários (via Facebook) aí embaixo pipocou. Entre as considerações, chamou-me especialmente a atenção as opiniões de Holmes Rodolfo Martins, mais conhecido como Lelo, importante ex-zagueiro e lateral do Noroeste nos anos 1970. Questionou argumentos meus — o que acho muito saudável — e me deixou mais curioso para conhecer suas opiniões, que são contundentes — e que devem ser levadas em consideração, afinal, trata-se de um ex-jogador que segue acompanhando a vida do clube e se preocupa com ele. A seguir, uma entrevista sem meias palavras  e sem cortes. Crítico de boa parte da imprensa — como disse, este C10 também foi questionado —, Lelo faz duras afirmações, de sua inteira responsabilidade. Respeitei o conteúdo retornado (por e-mail), na íntegra. Concorde ou não com ele, o fato é que aí está uma cabeça pensante sobre as coisas do Norusca. Confira:

Pelos seus comentários em redes sociais, você vê com desconfiança o atual momento noroestino. O que vislumbra a curto prazo na vida do clube?
“Para ser presidente de um clube de futebol profissional, na minha opinião, a escolha deve recair sobre uma pessoa de experiência administrativa bem sucedida na vida civil. Uma pessoa que possua qualidades positivas como cidadão e não só dinheiro. Existe uma filosofia errônea no futebol brasileiro de que o presidente do clube tem de ser rico, não importando o resto e no Noroeste, infelizmente, após a saída da família Garcia o clube foi entregue nas mãos de pessoas incompetentes,tanto na presidência como na vice-presidência. Pessoas sem nenhum passado no futebol, até mesmo no amador, sem credibilidade futebolística. O processo eleitoral do clube é de uma licitude duvidosa, o que permite que alguém que seja amigo de pessoa influente lá dentro possa chegar à presidência, como aconteceu na última ‘eleição’. Não basta ter vontade, tem que conhecer e vivenciar o futebol, tem que ter amizade e credibilidade perante o empresariado bauruense, não ignorar aqueles que amam o clube e dar declarações discriminatórias como a de que ‘tem que separar torcida e diretoria’, como se tal declarante fosse um expert no futebol.”

Você faz parte da história do Noroeste e mantém-se atualizado sobre. Já pensou em atuar na política do clube?
“Já trabalhei no clube como jogador, treinador do sub-20, no Departamento Amador e como auxiliar de treinador no profissional, ou seja, possuo um bom conhecimento do clube. Porém, não tenho, no momento, vontade de trabalhar no clube, até porque atualmente minha prioridade são meus estudos.”

 

O ex-defensor em uma formação de 1973. Em pé: Luizão, Lelo, Marco Antônio, Lorico, Odairzinho e Dé. Agachados: Rodriques, Zé Rubens, Amauri, Anderson, Milton e China. Imagem reproduzida do Blog do Norusca, do Reynaldo Grillo.
O ex-defensor em uma formação de 1973. Em pé: Luizão, Lelo, Marco Antônio, Lorico, Odairzinho e Dé. Agachados: Rodriques, Zé Rubens, Amauri, Anderson, Milton e China. Imagens reproduzidas do Blog do Norusca, do Reynaldo Grillo.

O plano de marketing para 2014 inclui reaproximação do clube com seus ex-jogadores. Como você recebe essa notícia? Acredita que pode render frutos?
“Na gestão da família Garcia, ex-jogadores do clube chegaram a ser humilhados pelo sr. Damião, ex-jogadores do Corinthians ganharam dinheiro para vir a Bauru jogar, enquanto que  muitos que vestiram a camisa do Noroeste foram oprimidos e esquecidos. O que e isto leva a uma premissa: se você fizer uma pesquisa, verá que são raríssimos os ex-jogadores que vão ao estádio assistir jogos do clube. A reaproximação vai depender da maneira como será feita, não adianta dar carteirinha para assistir o jogo de graça, isto é um direito que a CBF proporciona a ex-atletas. Hoje, os dirigentes trazem pessoas de fora para trabalhar no clube, pessoas sem nenhum vínculo emotivo com o clube e/ou com a cidade, sendo que aqui temos material humano experiente e comprometido com o time, como é o caso de Marco Antônio Machado, Varlei e outros. Para os dirigentes, ter jogado no clube é crime.”

Historicamente, os erros do Noroeste se repetem. Existe um caminho para mudar esse “disco furado”?
“Quando você une a experiência administrativa com a experiência técnica, dá liberdade de atuação ao seu estafe, não promove o culto à própria pessoa e se aproxima do empresariado e da torcida, as chances de sucesso são bem maiores. Oligarquia ou ditadura só afastarão as pessoas cada vez mais do clube.”

Você foi um jogador garimpado do futebol amador. A atual diretoria cogita observar alguns jogadores da várzea. É um bom caminho?
“Sem querer ser saudosista, a qualidade era bem maior que hoje, apesar de que poucos jogadores do amador bauruense vingaram no Noroeste. Mas não só o futebol amador deve ser olhado, competições envolvendo sub-20, sub-17 em Bauru e na região são fontes de matéria-prima que devem ser encaradas com muita atenção. É aí que poderiam ser aproveitados ex-jogadores como ‘olheiros’.”

Por já ter atuado em Marília e XV de Jaú, conhece a rivalidade deles com o Noroeste. Hoje, cada um está em uma divisão e nenhum na elite… Você vê alguma esperança para esses e outros clubes do Interior?
“Critica-se muito a Lei Pelé e a Federação Paulista de Futebol como causadoras de todo mal que aflige o futebol do Interior, mas jogam a sujeira e a burrice dos dirigentes por baixo do tapete. O clube do Interior tem de investir nas categorias inferiores para que, em um  futuro próximo, tal investimento venha a render frutos financeiros. Mas, para tanto, necessita de pessoas jurídicas competentes que saibam explorar a Lei Pelé a seu favor e evitem possíveis brechas que possam tirar os garotos do clube. Trabalhei com presidentes que souberam dirigir o clube de modo racional, lógico e inteligente, o que proporcionou momentos históricos em campeonatos inesquecíveis. Presidentes que privilegiaram as categorias menores e em dois ou três anos tiveram lucro.”

Que análise faz da imprensa esportiva de Bauru?
“Infelizmente temos pessoas mal intencionadas, pseudoprofissionais da imprensa que deixam o profissionalismo de lado em troca de favores pessoais. Há 40 anos,o sr. Luis Carlos de Oliveira, conhecido como Bolão, entrava na concentração do Noroeste e nos dizia: ‘Mandei colocar gasolina no carro do jornalista X’, em outra vez, dizia: ‘Dei um corte de tecido para o jornalista Y’ e assim por diante. O que acontecia? Nos dois jornais da cidade todo dia saíam reportagens com os garotos em que ele, Bolão, tinha interesse financeiro. Quarenta anos depois, o sr. Celso Zinsly me diz: ‘O jornalista X escreve o que eu quiser no seu jornal’, ‘Estou arrumando emprego para um familiar do radialista fulano de tal’, ‘Quando vou a São Paulo, na Federação Paulista, levo o radialista beltrano de tal comigo para passear’. Que moral têm essas pessoas para falar de Noroeste ou de alguém? Não é só em Bauru que isso acontece, em outras cidades também, tanto do Interior como da capital. A permissividade entre pessoas da imprensa e dirigentes, técnicos e empresários é muito grande. Mas tivemos e temos profissionais honestos e estes sabem quem são os corruptos de seu meio.”

 

Foto topo: Henrique Perazzi de Aquino

Por Fernando Beagá

Mineiro de Ituiutaba, bauruense de coração. Formado em Jornalismo e mestrando em Comunicação Midiática pela Unesp, atuou por 16 anos na Editora Alto Astral, onde foi editor-chefe e responsável pela implantação e edição das revistas esportivas. É produtor de conteúdo freelancer pelo coletivo Estúdio Teca. Resenhou 49 partidas da Copa do Mundo de 2018 para Placar/Veja. Criou o CANHOTA 10 em 2010, a princípio para cobrir o esporte local (ganhador do prêmio Top Blog 2013), e agora lança olhar sobre o futebol nacional e internacional.

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