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Inferno alvirrubro (2): os motivos indiretos da queda do Noroeste

Segunda parte da série que reflete a ruína do Noroeste comenta os equívocos extracampo

Dando sequência à série Inferno Alvirrubro (primeiro texto aqui), chegou a vez de refletir sobre o que, fora de campo, influenciou na queda do Noroeste para a quarta divisão do futebol paulista. Lembrando que são colocações a partir do meu ponto de vista, totalmente aberto a discordâncias e bom debate. Vamos lá:

Saída abrupta da família Garcia
Eu era um dos que defendia a saída de Damião Garcia, pois um dia isso ia acontecer e era melhor a cidade se preparar. Mas com transição, adaptando o clube à realidade bauruense. Só que foi no susto. Num belo dia, surge uma revista institucional cheia de pompa sobre os planos marqueteiros do Alvirrubro — que até tinha um recado nas entrelinhas, conforme desconfiei à época, mas parecia coisa distante, pois o jovem vice-presidente era recém-empossado (João Paulo Garcia). Duas semanas depois, entretanto, a retirada veio, em definitivo. A alegação foi o descontentamento com as críticas que a diretoria recebia, pela falta de identidade com a cidade. De forma oficial, Damião Garcia alegou sua saúde debilitada. Do dia para a noite, um orçamento mensal de R$ 400 mil, que teve que enxugado drasticamente, pois não havia mais receita. A derrocada começava ali.

Promessa furada
Depois de vencer a Copa Paulista com mandato interino de Toninho Gimenez (então presidente do Conselho Deliberativo), foi eleita a nova diretoria executiva. Amparado por uma promessa de R$ 40 mil mensais que no dia seguinte se mostrou furada, Anis Buzalaf se elegeu presidente — e a partir dali, nunca iria conseguir dinheiro suficiente para o clube. Ao mesmo tempo em que o CD tomou o cuidado de colocar na ata da eleição que estavam elegendo o candidato, não a proposta financeira, vale lembrar que essa atitude contradisse o fato de terem exigido, semanas antes, garantias financeiras. Em resumo, preferiram escolher um nome que circulava no meio empresarial a confiar o clube a torcedores. Só foram reconhecer o erro quase um ano depois, quando depuseram Buzalaf do poder alvirrubro.

Avalanche de equívocos
Após cair para a Série A-3, o Noroeste se viu mergulhado em ações trabalhistas — algum gênio assinou longos contratos com a maioria dos jogadores, que passaram a não receber assim que terminou a competição e, claro, dificultaram rescisões amigáveis. E a parte do elenco remanescente de 2012 reivindicava os salários de novembro (queda de braço de que gestão deveria pagar) e décimo-terceiro. Sucederam-se notícias negativas. Muitos dizem que naquela época a imprensa noticiava mais os erros. Existe uma grande explicação para isso: as trapalhadas eram escancaradas, inacreditáveis, grosseiras, a começar pelo blefe de Fabiano Larangeira. Foi nessa hora, com atraso e reconhecimento público de Toninho Gimenez (“Fomos ridículos e covardes”), que o Conselho começou a arquitetar a saída de Anis, que se concretizou em outubro.

Estatuto confuso
Mandato tampão não era uma prerrogativa do Estatuto do clube. Tanto que Emilio Brumati não assinou nada até ser eleito, de fato, 20 dias depois. E a eleição do Conselho, em fevereiro? Não estava claro quem poderia votar, falou-se em montar chapas, mas na verdade o texto fala em eleger conselheiros e definir cargos depois… Enfim, a letra do documento noroestino é cheia de brechas e há tempos vem sendo interpretada por conveniências. Ficou claro na ocasião, mais uma vez, que torcedores não são bem-vindos na política do clube. Pior: criou-se um equivocado princípio de que conselheiro tem que tirar dinheiro do próprio bolso pelo Norusca. Distorção total. No fim das contas, as escolhas dos (poucos, pouquíssimos!) conselheiros que comparecem nas reuniões resultaram em duas gestões que afundaram o Noroeste. Isso está na história do clube e na memória afiada do torcedor.

Falta de sintonia e bastidores tensos
Houve trocas de treinadores de forma intempestiva e unilateral. Gimenez, que confiou a Brumati o cargo maior como pupilo, foi desautorizado mais de uma vez. Para piorar, houve momentos em que a negociação das poucas revelações (principalmente Luiz Azevedo) se sobrepôs à preocupação de evitar o rebaixamento… Para piorar ainda mais, houve até agressão física — do presidente em Foguinho, técnico da base e homem de confiança de Gimenez. O episódio foi gerado por que um inscreveu o time no Paulista das categorias de base sem consentimento do outro — alguém já ouviu falar em sala de reunião, consenso? Por fim, Luciano Sato, gerente de futebol e responsável pela montagem do elenco — depois de sair e voltar do Novorizontino, onde montou time forte por lá –, também tem seu trabalho questionável.Tem mais: tentaram reativar o marketing, mas não houve estrutura para tal. O programa Eu Sou Torcedor não decolou, foi atravessado por ações caseiras do próprio clube, que vetou a adesão a um programa da Ambev. Desencontros, enfim…

E agora?
Feito o estrago, chega o discurso de apostar na base. Confesso que dá uma preguiça ver notícias de vitória do sub-15 como se fosse um grande feito. É importante, mas não vai amenizar o fato de que, futebol profissional, só daqui a um ano e lá no fundão… E fico com meu colega Gustavo Longo, que em brilhante texto para o Canhota foi categórico: se alguém pensa em ganhar dinheiro com garotada sub-23 na quarta divisão, esqueça. A Bezinha não revela ninguém.

Por Fernando Beagá

Mineiro de Ituiutaba, bauruense de coração. Formado em Jornalismo e mestrando em Comunicação Midiática pela Unesp, atuou por 16 anos na Editora Alto Astral, onde foi editor-chefe e responsável pela implantação e edição das revistas esportivas. É produtor de conteúdo freelancer pelo coletivo Estúdio Teca. Resenhou 49 partidas da Copa do Mundo de 2018 para Placar/Veja. Criou o CANHOTA 10 em 2010, a princípio para cobrir o esporte local (ganhador do prêmio Top Blog 2013), e agora lança olhar sobre o futebol nacional e internacional.

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