Noroeste vence Mogi Mirim na estreia: poderia ser melhor, mas foi muito bom!!

Noroeste x Mogi Mirim

Não foram cinco mil ao Alfredão, mas foi sim um bom público para uma quarta-feira à noite (2,3 mil), sob ameaça de chuva. Não foi uma grande atuação, mas a vitória por 2 a 1 sobre o Mogi Mirim (de virada!) deixou boas pistas do potencial do Noroeste para esta Série A3 de 2018.

O Norusca dominava completamente a partida, pressionando, roubando bolas e tentando chegar quando surgiu o gol dos visitantes, logo aos dez minutos de jogo, em bola parada. Apesar de não se abaterem, os noroestinos tiveram muita dificuldade de encaixar o último passe, diante de uma linha defensiva mogiana com cinco jogadores. O primeiro chute a gol só veio aos 26 minutos.

Mesmo dominante, com mais posse de bola, o Alvirrubro ainda passou por dois sustos no primeiro tempo. Parte da torcida, no seu precipitado direito, vaiou. Que tenha sido estímulo, porque Leandro Oliveira marcou belo gol de empate logo aos três da etapa final, rasteiro de fora da área.

Revigorado e empurrado pela torcida, o Norusca se lançou ao ataque, acertou o travessão (Marcelinho, de cabeça) e aos vinte virou, em cabeçada de Wellington, que há pouco entrara no lugar de Gindre — cruzamento de Alef, outro que veio do banco. Ainda houve chance incrível com Gabriel Esteves e passou por pelo menos dois perigos de ceder a igualdade, mesmo diante de um Mogi fisicamente em frangalhos, pela breve preparação — neste quesito, o time de Bauru sobrou.

Destaques

O lateral-direito Pacheco se mostrou uma boa opção ofensiva, com bastante vigor físico. Do lado esquerdo, Ricardinho cansou, mas também criou algumas jogadas. Na zaga, Marcelinho não perde viagem, não tem vergonha de dar chutão, é dominante. Gostei do trio de volantes (Maicon Douglas, Alex Silva e Michel) e Leandro Oliveira foi um falso ponta-esquerda, sempre recuando para buscar a jogada pelo meio e proporcionar a ultrapassagem de Ricardinho. Pela direita, Gindre teve dificuldades com a marcação adversária. Igualmente o centroavante Gabriel Esteves, que foi buscar jogo fora da área.

Foi possível perceber a proposta de jogo do técnico Tuca Guimarães, sobretudo no início do jogo, de pressionar o setor do campo onde está a bola.  Apesar disso, houve buracos, como o que proporcionou a arrancada de Alisson, que quase fez 2 a 0 ainda na etapa inicial. A chegada à área adversária é mesmo com vários jogadores, mas a retranca do Mogi dificultou os arremates.

Poderia ser melhor, mas foi muito bom! Sobretudo por voltar a respirar a atmosfera alfrediana. Só duas coisinhas: o setor de cadeira para sócio-torcedor (centralizado) estava com muitos lugares vagos, enquanto quem comprou cadeira avulsa ficou mais para a beirada; a iluminação do Alfredão está fraca… Deve ser muito caro investir em lâmpadas desse porte, mas tomara que logo o orçamento permita. Elogio: o preço da água, motivo de reclamação do início de 2017, estava comportado!

O Noroeste venceu o Mogi Mirim jogando com Ferreira; Pacheco, Jean Pierre, Marcelinho e Ricardinho (Lucas Hipólito); Maicon Douglas, Alex Silva, Michel (Alex) e Leandro Oliveira; Gindre (Wellington) e Gabriel Esteves.

Foto: Bruno Freitas/Noroeste

Diego Kami Mura: “Noroeste está pronto fisicamente para estrear”

Diego Kami Mura - Noroeste

Em sua terceira passagem pelo Noroeste — antes, em 2009 e 2015/2016 —, o preparador físico permantente Diego Kami Mura se sente em casa. Convidado a retornar, não titubeou em romper um contrato no Japão para abraçar o projeto noroestino. Com bastante bagagem no futebol paulista (Ituano, Mirassol, Capivariano e Botafogo) e no Centro-Oeste (Rioverdense, Gama, Anapolina e Atlético Goianiense) e passagem pela Arábia Saudita (Al Tai), o profissional trouxe novos métodos e tecnologia para o dia a dia dos atletas. E está animado para a temporada 2018. No papo a seguir com o Canhota 10, garantiu que fôlego não vai faltar ao elenco alvirrubro. 

Depois de uma nova passagem pelo exterior, sentiu saudade do Norusca?
Sempre tem saudade! Sou nascido e criado em Bauru, cresci aqui dentro do Noroeste. Então, toda vez que saí pensei em voltar um dia. Facilitou minha volta o clube estar se reestruturando, se reorganizando, com essas pessoas que estão no comando. O projeto me cativou muito para retornar com minha família. Temos trabalhado bastante.”



Como foi o planejamento para o time aguentar um calendário de muitos jogos em pouco tempo? 
Eu cheguei um mês depois do início da preparação, mas falava constantemente com a comissão técnica. Em relação ao calendário, não há muito segredo, já estamos acostumados. Esse formato é idêntico ao de 2016, encurtado por causa da Olimpíada. Somente nas últimas rodadas temos semana cheia para treinar. Sempre brigamos por um calendário mais brando, mas como não muda, temos que nos adequar. Buscar um grupo homogêneo na questão física e ter rodízio, porque temos elenco para isso. Quando houver uma situação de poupar um jogador, ele vai ser poupado. Claro que com bons resultados é mais fácil fazer isso, mas o planejamento meu, do Tuca [Guimarães, técnico] e do Marcelo [Santos, auxiliar] é realmente tentar otimizar ao máximo os atletas em campo.”

É muito pouco tempo entre uma partida e outra. Tem até que dosar a intensidade dos treinamentos.
Sim. Desde a minha passagem em 2016 fazemos o trabalho com o GPS, tanto nos treinos quanto nos jogos. Com isso, dividimos o elenco em grupos para controlar a carga. Quem joga é o grupo um, que já tem uma carga e se condiciona jogando. O grupo dois é dos suplentes. Aqueles que viajam, ficam um dia e meio no hotel para entrar talvez apenas vinte minutos ou nem jogar, pois são apenas três substituições. E o grupo três é quem a princípio não vai para o jogo. Esses grupos dois e três temos mais preocupação: temos que ofertar mais treinamento para o dia em que o Tuca precisar do jogador, ele estar inteiro. Afinal, a oportunidade aparece.”

Diego Kami Mura - Noroeste
Orientando os atletas: trabalho específico e met de chegar ao ague na reta final da primeira fase. Imagens: Bruno Freitas/Noroeste

E tem alguma preparação específica para as funções em campo?
Além do trabalho geral, tem uma preparação específica de acordo com a característica de cada atleta. Dependendo da função tática, um jogador corre mais. Tem também a condição física de cada um. Então, além dos grupos, dividimos também por especificidade, para ter esse cara inteiro os noventa minutos e se recuperar de um jogo para o outro.”

A pergunta de todo torcedor, que quer fazer valer o ingresso: como esse Noroeste 2018 vai correr até o último minuto dos jogos?
O time teve um tempo bom para trabalhar e está pronto fisicamente para estrear. Aos poucos, vai evoluir para chegar no ápice do meio para o final da primeira fase e buscar a classificação tão sonhada.”

Marcelo Santos: “Temos obrigação de estar entre os oito primeiros”

Marcelo Santos - Noroeste

Anunciado em agosto do ano passado como auxiliar técnico permanente do Noroeste, Marcelo Santos é a serenidade em pessoa. Conversa calma, ponderada, assim como era sua movimentação em campo, o jogo cadenciado, sobretudo na reta final da carreira, quando migrou da lateral-esquerda para o meio-campo. Com a camisa do Norusca, foram mais de 150 partidas que colocaram seu nome na história do clube. Afinal, tem momentos marcantes, do inesquecível time de 2006 (era reserva de Cláudio, mas mesmo canhoto assumiu a lateral-direita enquanto Paulo Sérgio esteve contundido) até ajudar o time a sair do inferno da Bezinha. Otimista com o trabalho que tem realizado ao lado de Tuca Guimarães e toda a comissão técnica, Marcelo falou com o Canhota 10 sobre esse novo momento de sua vida profissional e a expectativa de fazer uma boa Série A3.

Como tem sido essa experiência como auxiliar técnico e como você tem ajudado o técnico Tuca Guimarães e o grupo?
É um prazer voltar a essa casa que me acolheu tão bem nos meus tempos de atleta. Quando recebi o convite do Alex Afonso, atendi prontamente. Minha surpresa maior foi quando veio o Tuca depois, um cara que acrescentou muito na minha carreira, trabalhamos juntos no Comercial em 2014. Não haveria uma pessoa melhor para eu aprender. Para mim é tudo novo, tenho aprendido bastante e contribuído com a minha experiência e meu conhecimento do clube. Espero que isso se transforme em resultado. Já fizemos a preparação, os atletas estão adequados ao conceito de jogo do professor e espero continuar dando minha parcela de contribuição na comissão técnica.”



E como foi a sua transição, de jogador para este momento? Nos treinos, dá ainda dá vontade de chutar a bola?
Eu parei bem consciente do meu momento. Tudo na vida tem início, meio e fim. O ano de 2016 era mesmo para ser o último da minha carreira. Na verdade, 2015, quando vim jogar a quarta divisão a convite do Emílio. Ali era para encerrar o ciclo. Como aconteceu o acesso, veio mais um convite e aceitei. Mas parei bem consciente, posso falar de verdade que não sinto mais falta do jogo no campo. Claro que sou competitivo e por isso voltei para essa nova função. Quando parei, montei minhas escolas de futebol, mas com as crianças não tem essa questão competitiva. Isso ainda está aflorado e quero estudar, me preparar e aprender mais para um dia dar voos mais altos, aqui no Noroeste ou em outro lugar. Mas esse primeiro momento é de aproveitar essa oportunidade que o Reinaldo [Mandaliti, vice-presidente], o Alex Afonso [gerente de futebol] e o Estevan [Pegoraro, presidente] me deram. Aprender para lá na frente desfrutar. O Noroeste merece estar num lugar melhor. Espero já conquistarmos o acesso em 2018 e eu poder dar continuidade na minha carreira fora do campo.”

Pelo que vocês trabalharam e pela resposta dos jogadores nos treinamentos, o que o torcedor pode esperar do Noroeste nesta Série A3?
O trabalho do Tuca é pautado em muita organização. Se jogarmos a camisa pra cima, qualquer um dos 25 jogadores de linha que pegar não vai haver diferença. Talvez uma característica diferente entre um ou outro, mas vamos ter um time bem consistente e organizado. No início pode haver um pouco de dificuldade, por conta de estreia, ritmo de jogo, mas o torcedor pode criar uma expectativa boa. Pelo investimento que foi feito, temos a obrigação de estar entre os oito primeiros. Depois, no mata-mata, há os fatores que serão decisivos naquele momento. Para agora acredito que vamos brigar para estar lá em cima na tabela da primeira fase. Que os atletas deem essa resposta, como fizeram nos jogos-treino. Eu, também como torcedor, espero que o clube volte à Série A2. Sou da cidade e há muito tempo não via uma estrutura tão séria, dando condição de trabalho para os atletas. Que correspondam, nós da comissão técnica também e as coisas aconteçam positivamente em 2018.”

Marcelo Santos - Noroeste
Ao lado do técnico Tuca Guimarães: Marcelo foi atleta e capitão dele no Comercial. Fotos: Bruno Freitas/Noroeste

Tuca Guimarães: “Vamos fazer uma grande competição”

Tuca Guimarães - Noroeste

Um profissional seguro e ambicioso — na melhor concepção dessa palavra. Foi a impressão que tive de Tuca Guimarães, treinador do Noroeste desde agosto de 2017, quando lhe foi confiada a missão de montar a equipe que vai disputar a Série A3 com objetivo declarado de buscar o acesso. À beira do gramado de Alfredo de Castilho, enquanto o gramado era aparado e outros ajustes eram feitos no palco alvirrubro, Tuca conversou com o Canhota 10 sobre o padrão de jogo que deu ao time , sobre o calendário apertado que exigiu a montagem de um elenco qualificado e anunciou que vai fazer rodízio de capitães. Também comentou passagens de sua carreira, revelou um arrependimento e deixou claro que mira a elite nacional a curto prazo. As linhas abaixo são uma boa oportunidade de o torcedor do Norusca conhecer Tuca e ter uma boa ideia do que esperar de seu trabalho.

Você teve tempo para trabalhar o time e seus conceitos. Está satisfeito com o que foi realizado?
A princípio, a satisfação é grande. Realizamos o que havia sido planejado. Era o primeiro ponto na nossa caminhada. Outra situação importante é que não tivemos nenhuma lesão muscular. O time está inteiro. Isso mostra que o trabalho foi bem realizado, as etapas foram bem executadas. Vamos começar com um nível bom para estreia, pois sabemos que o ritmo de competição é diferente do de amistosos. Mas nosso ritmo vai ser forte.”

Por serem muitos jogos em pouco tempo, você vai precisar repor peças durante o campeonato. Todos estão prontos e alinhados com um padrão tático?
Temos 25 jogadores de linha que qualquer um deles pode ser titular. Qualquer um que for designado está em condições de entrar e jogar. Conseguimos montar uma equipe homogênea. Quanto ao formato da competição, vai se sair melhor quem conseguir oxigenar a equipe. Nós vamos poder fazer isso, em função da qualidade do elenco. A partir da terceira rodada, quem tiver de quatro a cinco peças frescas vai levar vantagem no segundo e terceiro quarto da partida [metade final do primeiro tempo e metade inicial do segundo], que é quando tudo acontece.”

São muitos jogadores experientes no elenco, com perfil de liderança. Já definiu o capitão? Além disso, nem todos vão ser titulares, mas serão importantes para incentivar o grupo. Como lidar com esses medalhões?
Tínhamos a opção de montar um time com dezoito atletas e complementar com meninos com fome por um espaço. Corri disso. Preferi montar um time para brigar por título, que conta com 25 jogadores de linha, todos com condição de ser titular em qualquer time da A3. E talvez alguns fiquem até fora da relação do jogo, mas vão ter que entender que isso é a caminhada de uma equipe vencedora. Em relação ao capitão, a faixa vai ser transitória. Vou variar bastante, cada hora num braço. Vamos entender momento, jogo, adversário e vou buscar ter 25 líderes no meu time.”



Qual o estilo de jogo de um time do Tuca?
Equilibrado. Não acredito em nenhuma situação que perdure por noventa minutos. Temos que variar bastante as ações e estamos treinando para isso. Mas é uma equipe compacta, que tem bastante jogadores pisando no terço do campo onde o jogo estiver se desenrolando. É dessa forma que conceituo o jogo e que vamos atuar. Uma equipe muito sólida para defender, mas que consiga atacar com bastante gente pisando na área adversária. Esse é o conceito do futebol moderno. ”

Você tem muitas opções do meio para a frente com diferentes características. Independentemente dos números do esquema, vamos ver variações ofensivas?
Exatamente. Não me apego muito na plataforma tática. Isso varia bastante durante a partida e, se treinamos, podemos variar. E sem dúvida que a característica conta muito. Temos meia de armação, atletas de velocidade com profundidade, homens de área de referência, homens de área com mais mobilidade. Isso dá para variar de acordo com o momento da competição e com o adversário. Até com relação ao desgaste dos atletas. Temos que levar em consideração, e isso vale para todos os times, que são jogadores de uma prateleira de mercado que não têm lastro de jogos o ano todo. São jogadores de uma média de vinte e poucos jogos por ano e que de repente ficam expostos a dezenove partidas em praticamente sessenta dias, um volume muito maior do que estão acostumados. Então, se não tiver um giro de elenco, a tendência de ter problemas de lesão ou quedas acentuadas de produção aos vinte do segundo tempo é muito grande. Vamos minimizar isso com a qualidade do grupo.”

Com remanescentes da Copa Paulista e reforços que você teve a oportunidade de escolher a partir de uma convivência anterior, você conseguiu dar a cara do time que pretendia?
Sem dúvida. Extraímos o que era melhor do grupo anterior e qualificamos. Melhor, impossível. Temos um grupo muito competitivo para a Série A3. Nem falo em conter a euforia da torcida. Isso é natural e vai nos ajudar bastante. A busca é pelo acesso. Mas temos que pautar nossa caminhada por degraus. Nosso primeiro degrau é nos mantermos no G-4 para poder planejar a segunda fase, que é mata-mata.”

Tuca Guimarães - Noroeste
Orientando os jogadores: Tuca quer todos de prontidão para as oportunidades. Fotos: Bruno Freitas/Noroeste

São duas situações. Tem que preparar o time para se comportar em pontos corridos, depois reagir rápido para sobreviver em mata-mata. Como a sua vivência de atual campeão da A3 pode ajudar?
São duas competições. Primeiro, acumular gordura, estabilidade no G-4, para ter paz nas últimas rodadas. Aí, planejar o mata-mata, quando não se pode errar. Haja vista o Olímpia, que foi perder seu primeiro jogo justamente no jogo do acesso, dentro de casa, para nós [Nacional]. Acaba apagando tudo o que foi feito durante a competição por aquele momento. Mas vamos com certeza chegar fortes no mata-mata, só que antes temos que viver intensamente os pontos corridos e garantir o quanto antes a vaga no G-8.”

Pelo que observou na montagem dos elencos dos adversários e pelos trabalhos, viu times que despontam como principais oponentes do Noroeste?
É uma divisão que é difícil mensurar forças antes de ser dada a largada, principalmente em função dessa falta de lastro. A maioria das equipes com jogadores que estavam parados desde a primeira fase da Copa Paulista, por exemplo. Então, até essa equipe mostrar o que vai fazer, são três ou quatro rodadas. Claro que temos informações pontuais que ajudam, mas os primeiros vinte minutos dos jogos é que vão ser fundamentais para tomar decisões.”

Há uma discrepância entre a Série A do Brasileiro e a Série A3. O que você tirou de aprendizado da sua passagem pelo Figueirense que pode aplicar nesse momento?
O Figueirense foi um divisor de águas para mim pela forma como fui acolhido pelos atletas. Minha ida para o futebol de campo foi complicada por conta de conceitos, trouxe muita coisa do futsal. E como isso seria recebido era uma coisa que me incomodava bastante. Peguei jogadores experientes, como Carlos Alberto, Rafael Moura. Mas tudo foi bem aceito, me abraçaram de uma forma… Isso me deu muita segurança para dar sequência, entender que estava trilhando um caminho diferente, mas correto. Na minha carreira, talvez eu tenha errado de não ter assumido o Boa Esporte [no início de 2017] para ir para a Portuguesa. Apostei num gigante, mas não sabia como era a Portuguesa internamente e me deparei com uma situação complicada. Tive doze dias para montar um time e acabei tendo problemas. De lá, assumi o Nacional na A3 em décimo lugar, com risco de rebaixamento, e acabamos tendo uma campanha fantástica. Aí veio o Noroeste. Costumo encarar os desafios com a mesma intensidade, aqui ou no Figueirense é igual. Quero de coração que a imprensa, a cidade, a torcida criem uma atmosfera para que o Noroeste seja muito forte dentro de casa. E que eu coloque o meu nome nessa página de reconstrução de um grande clube. Que o clube volte para a A2, depois A1, tudo degrau por degrau. Estou encantado com a mobilização das pessoas. Tudo isso é pautado em paixão, temos que ter cuidado com isso, mas tenho certeza de que a resposta em campo vai ser boa e o Noroeste vai voltar a ser forte.”

Já que mencionou a carreira: sua passagem pelo futsal é bem-sucedida. O que trouxe de lá, de conceitos para aplicar nesse campo maior?
Trago tudo. Minha linha de trabalho foi montada em dez edições de liga nacional, dois anos de seleção peruana, Copa América, seletiva de mundial, fui vice-campeão da Libertadores de futsal em 2009. Trouxe essa experiência para o campo. Em 2003, quando estava na seleção peruana, o treinador do campo era o Paulo Autuori. Treinávamos no mesmo lugar e um dia comentei com ele que tinha vontade de migrar para o futebol. Ele me disse que eu tinha uma ferramenta que poucos tinham, que se eu soubesse aplicar, iria abreviar a fila. Foi a partir dali que comecei a criar minha relação com o futebol, esperando minha oportunidade. O começo foi duríssimo, tomei muita pancada em time que não pagava, estruturas ridículas. Mas nunca recuei. Tive propostas para voltar a futsal, pela credibilidade que construí lá, mas sabia onde queria chegar. Acredito que o futsal é um divisor de águas. O PC [Oliveira, ex- treinador da seleção de futsal] já começou com sucesso [campeão da Copa Paulista 2017 pela Ferroviária]. É uma modalidade que pode acrescentar muito ao futebol, como o vôlei e o basquete nos exemplos de gestão. São modalidades com menos esquemas, menos meandros. Espero conduzir minha carreira assim para voltar a uma prateleira de mercado onde já pisei. E num futuro não muito distante.”



Quais são suas referências na profissão? Além do Branco (lateral-esquerdo campeão do mundo em 1994), de quem foi auxiliar, quem mais o ajudou a formatar o seu jeito de ver o futebol?
O Branco é um pai que eu tenho. Falo com ele a cada três dias. É um ídolo que virou amigo. Tenho um respeito enorme, pela pessoa que é. Quando fui efetivado no Figueirense [setembro de 2016], foi na mesma época que surgiram Jair Ventura, Zé Ricardo, Marcelo Cabo… Formamos um grupo, conversávamos muito, temos uma linha parecida na qual acredito. Claro que cada um pode ‘chegar ao Japão’ por caminhos diferentes, mas acredito no trabalho equilibrado, na quantificação de treino, em criar situações de jogo no treinamento… No futsal, o PC me ajudou demais. Em 2000, quando assumi o juvenil do Corinthians, ele era treinador da GM e permitiu que acompanhasse os treinos dele. Segui a linha dele fielmente, depois fui criando minhas ramificações. Mas foi um cara que pautou meu início de uma forma fantástica. Em gestão, sou fã de carteirinha do Bernardinho, da forma como ele conduz pessoas. Construo com um pouquinho de cada um e dou a minha cara para buscar um futuro promissor.”

Para ajudá-lo nessa missão, você tem duas pessoas na comissão técnica muito identificadas com o clube: Marcelo Santos e Diego Kami Mura. Como tem sido esse trabalho conjunto?
O Marcelo já foi meu capitão quando fui seu treinador. Já tinha uma identificação. Eu e o Kami Mura temos uma linha de trabalho muito parecida. Isso se afinou com muita tranquilidade. É um relacionamento excelente, são pessoas por quem tenho muito carinho. Estamos conseguindo colocar uma linha de trabalho que vai ser difícil achar alguém melhor preparado. Podemos nos deparar com adversários que estejam tão preparados quanto nós, mas mais preparados vai ser difícil. Vamos fazer uma grande competição.”

Tuca Guimarães - Noroeste
Kami Mura (à esquerda) e Marcelo Santos: afinidade

Rafael Hettsheimeir modelo 2018: dominante no garrafão

Rafael Hettsheimeir - Bauru- NBB

Foram só três jogos até aqui, mas a amostragem é animadora: Rafael Hettsheimeir começou 2018 pontuando acima de sua média desde que chegou a Bauru e, melhor, insistindo no jogo interno. Ontem, por exemplo, na vitória do Sendi Bauru Basket sobre o Basquete Cearense (87 a 82), o camisa 30 fez muito trabalho de pivô raiz pra cima dos adversários Leozão e Fiorotto, levando a melhor na maioria dos embates.

A média de Hett nas três partidas de 2018 (Botafogo, Vitória e Cearense) é de 22 pontos. Para se ter uma ideia, nos dez confrontos anteriores (em 2017), registrou 11,5 por jogo. Isto é: dobrou a média.

Perguntado sobre esse melhor momento, sobretudo no poste baixo, o descontraído Canela me olhou com espanto: “Não fiz nada de diferente! Continuo trabalhando forte, tentando melhorar meu desempenho para ajudar mais a equipe”. Ponderou, entretanto, que evoluiu fisicamente nas últimas semanas. “Vim de uma lesão, demorei entrar no ritmo, mas tive a confiança do Dema e dos meus companheiros, o que ajudou bastante.” O fato de estar com uma minutagem comedida ajuda nesse aspecto físico: são 22min por partida até aqui.



Feliz com o desempenho de seu cestinha, o técnico Demétrius Ferracciú admitiu que vinha trabalhando com o atleta essa questão do jogo interno. “Foi importante ele perceber que quando joga lá embaixo e ganha confiança, o jogo abre. E ganha crédito para chutar de fora, porque já fez umas embaixo da cesta”, comenta. De fato. Nas dez primeiras partidas do NBB (quando Hett chegou a sair zerado de quadra em duas ocasiões), ele tentou 2,8 chutes de fora por jogo e o aproveitamento foi de apenas 18%. Nos últimos três jogos, arriscou do perímetro 5,3 vezes (quase o dobro) e o aproveitamento cresceu para 37%.

Acredito que há outros fatores que desencadearam esse versão 2018 de Hettsheimeir: a seleção brasileira e a concorrência. Recentemente, o técnico Aleksandar Petrovic disse à Folha de S. Paulo que Todos querem chutar de três no Brasil e assim não se ganha nada”. Deixou claro que não quer um jogo em que todos estejam de frente para a tabela. Isso quer dizer valorizar o cincão. Nesse ponto, Rafa vê dois colegas em ótimo momento brigando por vaga: o flamenguista JP Batista e o mogiano Caio Torres, sem contar os que atuam fora, como Augusto Lima — e Felício, quando puder ser convocado.

Dominante

Então, é bom Hett aproveitar sua supremacia local para impressionar cada vez mais na função. “Ele é um jogador que faz a diferença e sabe disso. Ele estava aquecendo para o NBB, agora já aqueceu. Ele é um jogador dominante, tem muita técnica e tem que aproveitar. Está sabendo fazer isso e o time também, de encontrá-lo na melhor posição”, opinou Demétrius.

 

Foto: Victor Lira/Bauru Basket