Norusca é sofrer

Norusca é sofrer

Tenho escrito sempre que a essência do torcedor, sobretudo noroestino, é sofrer. A vitória magra sobre o Olímpia, pela quarta rodada da Série A3, foi mais uma prova disso. Nada que abale alvirrubros como o Niltinho, o cidadão da foto acima e figura habitual atrás do gol dos eucaliptos. Faça chuva ou sol, ele está lá. “Se eu não estiver, é porque estou trabalhando“, alerta.

Tenho por hábito, no intervalo, deixar a cabine de imprensa e ir cumprimentar o Niltinho — também o Josinei, outro alvirrubro daqueles. Acabo ficando boa parte do segundo tempo, pela resenha e pelo impagável termômetro que é acompanhar o humor da arquibancada. Do elogio desconfiado à crítica mais injusta, é ali que é forjada a confiança no time — que, por enquanto, está devendo mesmo.

Importam os três pontos, claro, ninguém lamenta pela falta de espetáculo — até porque o jogo praticado na terceirona paulista é algo parecido com futebol e a bola parece ter nojo da grama. O que preocupa é passar boa parte do segundo tempo encurralado pelo lanterna do campeonato.

O Norusca voltou do intervalo animado, com boas triangulações pela direita, e alcançou o gol da vitória antes dos dez minutos. Poderia aproveitar a empolgação para perseguir melhor placar, mas recuou. E passou quase meia hora se defendendo, isto é, sofrendo.

Hábito no Alfredão: em dezesseis jogos em casa em 2018, foram apenas seis vitórias e somente duas delas com mais de um gol de diferença. Então, amigo, não tem show na Vila Pacífico. Mas tem amendoim, cornetagem e palpitação. Mais raiz, impossível.


Fernando Beagá

 

Gol do Noroeste
O gol de Léo: alívio para os 1,4 mil torcedores. Fotos: Fernando Beagá/Canhota 10

 

 

 

A provação de Jaú

Gabriel Jaú

Resiliência é uma das palavras da moda. Ainda bem, porque todos precisamos dela (da capacidade de rápida adaptação ou recuperação, segundo o Michaelis) diante dos perrengues diários. Mas Gabriel Jaú precisa de muito mais. Na iminência de voltar a uma partida oficial, após meses de trabalho árduo de recuperação de cirurgia no joelho, o ala-pivô teve nova lesão. Como num jogo de tabuleiro (sarcástico), teve que voltar várias casas.

A palavra para o momento de Jaú é outra, mais cascuda: provação. Novamente aciono o dicionário: situação aflitiva ou infortúnio, que põe à prova a coragem, a força moral e a fé de uma pessoa. Descreve bem o desafio que o camisa 25 tem pela frente, uma mistura de sacrifício e otimismo.

Quando foi meu convidado no ENTREVISTA 10 (assista — ou reveja — logo abaixo), em junho de 2018, tive a oportunidade de entender, pelas palavras, um pouco mais da maturidade que aquele jovem demonstrava em quadra. ‘Menino bom’ é um elogio recorrente que fazem a ele. Chato nos treinos, pela intensidade e entrega, tirou os mais rodados da zona de conforto. E foi justamente no treino que o joelho de Jaú sucumbiu de novo. Dor, medo e frustração certamente o tomaram, mesmo por um instante. Mas essas palavras vêm antes no dicionário. Chegou a hora da provação, que Jaú assumiu de prontidão, como demonstrou ainda ontem em suas redes sociais:

Ao pensar nesta pauta, lembrei-me que a imagem abaixo deveria compor o texto. É Jaú consolando o amigo (e então colega de Dragão) Stefano, derrotado numa Copa América sub-18. Hoje, é o ala-pivô quem precisa de afago. Foram muitos desde a triste notícia. Que o abasteçam, Gabriel. Boa cirurgia, bom trabalho, bom retorno. 👊

Gabriel Jaú e Stefano
Um gesto definidor. Foto: Fiba Americas. Foto topo: Media Day do NBB

 


Fernando Beagá

 

Abaixo, a entrevista concedida por Gabriel Jaú ao ENTREVISTA 10:

Hoje é dia de Norusca

É sempre um dia especial, o do reencontro — embora ainda não seja no Alfredão. Dia de renovação da fé alvirrubra. A páscoa noroestina. Essa rotina de esperar meses para rever o time é uma incubadora de ansiedade. Outra vez, entretanto, passou. Chegou a hora de sofrer mais uma vez. Sim, sofrer, porque essa é a graça de ser torcedor. Em qualquer ocasião. Sofre-se na queda, no sufoco, mas também na vitória. Não existe passeio ou acesso fácil. Sempre custam algumas unhas.

Já houve estreias mais empolgantes, como aquela quarta-feira escaldante que torrou o Corinthians de Tevez, em 2006, outras melancólicas, como o inferno da Bezinha. Depois de tantas idas e vindas, a gente percebe que a divisão é irrelevante. A camisa vermelha é a mesma e há sempre um sonho pela frente. Pode ser um acesso (a realidade atual), pode ser uma vaga na Série D, pode até mirar uma Libertadores — vide Santo André e Paulista.

Quando o Esporte Clube Noroeste adentrar o gramado do Palma Travassos, em Ribeirão Preto, começará a escrever um novo capítulo. O tema ainda é uma incógnita. Pode ser terror, mas (tomara!) pode ser épico. Certamente, haverá suspense nesse romance entre a torcida e seu amado Norusca.

Bom trabalho ao clube, do presidente ao jardineiro. Bom trabalho aos colegas que vão correr atrás de boas histórias. Boa diversão aos torcedores. Que 2019 acrescente boas lembranças.


Fernando Beagá

 

 

(Foto: Bruno Freitas/EC Noroeste)

Bauru Basket invicto e voando: preparador físico Bruno Camargo explica trabalho no início da temporada

Bruno Camargo - preparador físico do Bauru Basket

retranca-bauru-basketCinco jogos, cinco vitórias. Único invicto do Campeonato Paulista. Placares elásticos mesmo contra adversários diretos, como Mogi e Pinheiros. O Sendi/Bauru Basket faz bom início de temporada 2018/2019, a primeira em muitos anos que já começa com os adultos — dosando minutos, claro, mas buscando aprimorar o entrosamento de um time remontado. Na parte física, também é preciso entrosar. O preparador Bruno Camargo está trabalhando pela primeira vez com boa parte do elenco, conhecendo como cada um responde nos treinamentos e jogos, mas conta com mais recursos dessa vez: a diretoria adquiriu equipamentos de monitoração, que serão utilizados em todas as partidas — antes, ele contava com empréstimos eventuais de parcerias. O CANHOTA 10 falou com Bruninho sobre esse início de trabalho:

Sabemos que o trabalho ainda está em andamento, mas o time já dá a impressão de que está voando…
Comparado a temporadas anteriores, nós começamos mais cedo. E o calendário exigiu isso. Mas temos consciência de que temos muito a melhorar. É um grupo novo não só no quesito tático, mas na parte física também. Muitos jogadores que eu não conhecia a cultura de treino deles. Aos poucos vou conhecendo e adequando para melhorarem dia a dia.”

Os atletas estão sendo monitorados durante as partidas. Como você leva essas informações para os treinamentos?
O esporte de alto rendimento está cada vez mais exigente. Então, temos uma tecnologia que permite uma análise mais criteriosa de como foi o esforço do atleta, para adequar as cargas de treinamento diário, semanal e mensal. É fundamental. Eles jogam com frequencímetro, que me dá um parâmetro de como foi a intensidade de jogo, para depois eu equiparar nos treinamentos.”

Quais os atletas mais destacados fisicamente no início do trabalho?
O Larry, pela sua herança genética. É um cara muito diferenciado fisicamente. Ele terminou a temporada mais tarde, então temos que ter cautela para que não tenha uma queda de rendimento em alguns momentos específicos. O Jefferson se apresentou muito bem. Eu o conheço há anos e ele se apresentou diferente para esta temporada, com a consciência de que tem que se cuidar mais, treinar mais. Isso faz muita diferença.”

Jefferson William voltou mais pronto das férias. Fotos: Victor Lira/Bauru Basket

Uma curiosidade sobre os pivôs: como trabalhar esses atletas que precisam do peso e da força como diferenciais?
Eles são pivôs justamente pelo seu perfil, seu biotipo. Por mais pesados que sejam, temos que deixá-los ágeis sem perder essa característica de força. Eles jogam muito no contato físico, a briga é violenta lá embaixo. Mas eles precisam mover essa massa com velocidade.”

Qual é a previsão para o time chegar ao auge físico?
Numa condição melhor já nos playoffs do Paulista. No final de outubro começamos a Sul-Americana, planejamos chegar bem nesses momentos específicos.”

Copa Paulista 2018: primeiras impressões sobre o Noroeste

Noroeste x XV de Piracicaba - Copa Paulista

Estreia com derrota, seguida de empate no primeiro jogo em casa. O início do Norusca na Copa Paulista não é animador, mas é cedo para concluir um futuro sombrio na competição — sabidamente encarada como parte do planejamento para a Série A3 de 2019. O que vale, nesse primeiro momento, é detectar características da equipe comandada por Betão Alcântara, treinador que chegou como unanimidade e, portanto, a ele devem ser dados crédito e paciência.

Apesar da chuva que caiu durante a partida contra o XV de Piracicaba na última quarta, deu jogo. Muitas chances de gol — de ambos os lados, diga-se — justificaram o ingresso dos pouco mais de quinhentos torcedores que encararam o frio. E essa é uma primeira e animadora impressão sobre o Noroeste de Betão: um time que ataca. Falta melhorar a pontaria, ficou evidente, mas não há nada mais frustrante do que ir ao estádio e não ver o goleiro adversário trabalhar. O goleiro Leonardo, do XV, sujou o uniforme. Mas há o outro lado: a defesa alvirrubra passou sustos, levou bola na trave e pelo segundo jogo seguido sofreu gol nos acréscimos. Saudades, Marcelinho.

Taticamente, o Norusca defende no 4-4-2: Daniel Bueno e Leandro Oliveira marcando a saída de bola, Gindre e Renatinho pelas pontas em linha com a dupla de volantes. Quando ataca, é um 4-3-3 com uma particularidade: Gindre poucas vezes faz o corredor pela direita, pois não é um atacante agudo, velocista; quem cai por aquele lado é Leandro Oliveira. E aí mora o problema: o meia criativo ficando limitado a aguardar um passe, quando deveria ser o autor de passes decisivos.

Nas laterais, imagino que Pacheco e Cazumba não estejam fisicamente plenos, afinal, estiveram jogando a Série D por empréstimo. Eu tinha muita expectativa por desempenhos diferenciados dos dois, o que ainda deve acontecer. Cazumba, entretanto, ganhou a concorrência de Thiago Feltri, jogador que, como ele, tem DNA de time grande na base (Atlético Mineiro).

A dupla de volantes foi bem contra o XV. Alê passa segurança, Rogério Maranhão tem bom passe. E ainda descobrimos que ele chuta bem — um golaço no primeiro tempo, uma defesa difícil do goleiro no segundo. Entre alguns cochilos, a zaga noroestina dá impressão de que vai entrosar. E de goleiro (Cairo), definitivamente, estamos bem servidos.

Finalizo repetindo frase do primeiro parágrafo: crédito e paciência, moçada.

 

 

Foto: Bruno Freitas/Noroeste