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Robert Day: “Amo Bauru. Foi uma decisão difícil”

Confira entrevista exclusiva de Robert Day ao C10

retranca-bauru-basketConforme prometido no texto da vitória do Gocil Bauru sobre o Pinheiros, aqui está o papo exclusivo que tive com Robert Day, agora ex-jogador de basquete. Foi rápido, afinal ele estava rodeado de gente querendo tirar uma foto e dar um último abraço, mas foi significativo. Sobretudo a longa resposta da primeira pergunta: ele decidiu parar em meio à incerteza. Num golpe do destino, o Dragão reuniu condições de fazer uma proposta a ele somente depois que já havia voltado de mala e cuia para os Estados Unidos — confirmando o que este Canhota 10 vinha dizendo há semanas (aqui e aqui), que a questão familiar pesava e muito e os Day já estavam restabelecidos no estado ianque de Oregon. Enfim, está feito, agora Robert vai jogar basquete somente por lazer, engajar-se em uma nova profissão e ter mais tempo para acompanhar o desenvolvimento dos filhos, a ginasta Lainey e futebolista Cooper. Fala, Roberdei:

No meio tempo entre a impossibilidade da renovação e o surgimento de um novo patrocinador, você já havia tomado a decisão: estabeleceu-se de novo em casa. Aí não tinha como voltar, né?
Eu saí de férias achando que ia voltar. Deixei tudo aqui, até o cachorro. Pra mim, era cem por cento que voltaria no começo de agosto. Até o meio de agosto, não chegou proposta. Eu sei que a Paschoalotto saiu e estavam procurando outros patrocinadores, mas chegou um momento em que eu não poderia esperar mais. Estava sem salário [por não ter mais contrato], meus filhos fora da escola há três meses. Eu tinha que tomar uma decisão difícil, tinha que colocá-los na escola. Tive outras propostas, da Argentina, mas não queria arrancar minha família daqui e colocá-los em outra cultura. Eles já falam fluentemente o português e essa é a segunda casa deles. Para mim, era aqui ou nenhum lugar. Aí, não apareceu outra proposta no Brasil e tive que tomar a decisão. Eles já começaram escola lá há três semanas, estão jogando futebol, softbol, praticando ginástica, estão cuidando da vida lá. Acho errado eu arrancá-los de lá e voltar. No meio de agosto, eu já tinha vendido tudo, levado cachorro de volta… É muito difícil remontar tudo e fazer um contrato que, nessa crise do Brasil, não me daria muito. Foi difícil aceitar, porque amo aqui, acredito no time, na cidade, no projeto. Mas foi a decisão certa, porque tenho uma família que precisa de mim lá, da minha ajuda. Estou fora do meu país há doze anos. Minha avó está com 91, não sei quanto tempo mais ela tem no mundo, quero passar um tempo com ela também. Não tenho nada pessoal contra as pessoas daqui, amo aqui, queria voltar, mas no fim não deu certo.”

A aliança presa ao cadarço: nos rachões, não vai mais precisar. Foto topo: Caio Casagrande/Bauru Basket
A aliança presa ao cadarço: nos rachões, não vai mais precisar. Foto topo: Caio Casagrande/Bauru Basket

Você está em forma. Tem alguma perspectiva de atuar por alguma liga local ou só vai brincar de basquete mesmo?
Até agora, não vi oportunidade lá de jogar de forma competitiva, que valha a pena treinar todo dia… Eu quero apoiar minha família, os esportes dos meus filhos. Se eu fosse técnico deles, seria legal… Acho que vou brincar duas vezes por semana, depois que pegar o ritmo da vida nova. Mas, agora, estou pensando neles.”

Nessa despedida, apesar da festa, era jogo decisivo. Você deu sua contribuição, lutou, pontuou, também errou lance livre…
Errei quatro!”

Mas pela falta de ritmo, está valendo. Como foi se esforçar num jogo decisivo nessa mistura de emoções?
Joguei várias partidas na minha vida que pesavam bastante. Sempre jogo do mesmo jeito. Essa foi um pouco diferente porque não vai acontecer de novo. Sempre entro na quadra pensando em ajudar meu time de qualquer jeito, com rebote, defendendo, metendo bola, não importa… Vejo do que o time está precisando e quero dar isso a eles, para ajudar a ganhar. Sobre o ritmo, não via uma bola há seis semanas! Fora de ritmo mesmo… Não sei se foi energia, se Deus me levou, mas foi tranquilo. Se tivesse outro jogo amanhã, não sei se conseguiria…[risos]

Nesse improviso, ajudou estar com o amigo Valtinho? Matou a saudade?
Vixi! Eu falei pra ele me dar pelo menos uma assistência.”

Você não está se despedindo só de Bauru, mas do Brasil. E, falando em Valtinho, tem Uberlândia nessa história também. Vai levar essas duas cidades com você…
Vão embora comigo pra sempre. Tenho amigos que vão me visitar, até da comissão técnica. Não marquei dia, mas já convidei todo mundo. Fiz amizades que já se tornaram família. O Brabo já foi em casa, Valtinho, a esposa do Jefferson… Então, essas amizades não acabam aqui, não.”

 

Day foi personagem de um dos textos que eu mais gosto de recordar, o do vice-campeonato do NBB 7. Fica a dica de leitura.
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Por Fernando Beagá

Mineiro de Ituiutaba, bauruense de coração. Formado em Jornalismo e mestrando em Comunicação Midiática pela Unesp, atuou por 16 anos na Editora Alto Astral, onde foi editor-chefe e responsável pela implantação e edição das revistas esportivas. É produtor de conteúdo freelancer pelo coletivo Estúdio Teca. Resenhou 49 partidas da Copa do Mundo de 2018 para Placar/Veja. Criou o CANHOTA 10 em 2010, a princípio para cobrir o esporte local (ganhador do prêmio Top Blog 2013), e agora lança olhar sobre o futebol nacional e internacional.

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