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Com pulso firme e carinho, meninos do Paschoalotto Bauru formam família, sob os cuidados de uma guerreira

Conheça a rotina dos meninos da base do Paschoalotto Bauru, devoradores de pizza aos cuidados da Fran

Desde que foi campeão brasileiro sub-22, na segunda edição da Liga de Desenvolvimento, o Paschoalotto Bauru intensificou sua aposta na garotada. Beneficiou-se de leis de incentivo, recrutou meninos de alto potencial, trouxe André Germano, treinador que atua na base da Seleção Brasileira. E, principalmente, deu suporte físico para esses meninos viverem na Cidade Sem Limites.

Treze dos garotos da base moram numa residência na zona sul da cidade, onde dividem espaço com o quadro administrativo da Associação. Assim, ficam sob o olhar atento de diretores, mas também sob os cuidados de Francine Oliveira, a Fran, que toma conta da rotina dos meninos.

“A Fran é o coração do Bauru Basket, porque ela é a faz-tudo, é a mãe de todos. Ela tem um papel muito importante para todo mundo da casa. Ela tem remédio, leva no hospital, ameniza as broncas…”, resume o ala Leonardo Eltink, do time sub-19. Fran é mesmo tudo isso e mais um pouco. Não fosse tão jovem, poderia mesmo se dizer que é a mãezona da molecada.

“Eu não tenho filhos, mas tenho esse vínculo forte com eles. Às vezes estresso, quero brigar. Mas eles me conhecem, dizem que não vão mais fazer, fico com dó… Eles são espertos”, conta Fran, que jura estar engrossando o discurso. “Já estou ficando mais do mal… Eu era mais mãe, mas não estão me convencendo mais”, avisa.

Tia Marilda, pura simpatia, bota gerência na cozinha
Tia Marilda, pura simpatia, bota gerência na cozinha

Quem ajuda nas broncas é Marilda, chamada de Tia, que de manhã dá um tapa na arrumação da casa — mas a obrigação de manter a ordem é dos próprios meninos –, prepara o almoço e deixa comida no jeito para a refeição noturna. Segundo ela, a montanha de louças na manhã seguinte é assustadora. De vez em quando, eles ajudam. Felipe Vezaro, ala do adulto que já mora em apartamento (com o irmão Lucas, armador do sub-19), é um dos que se dispõem a encarar a pia. O pivô Wesley Sena, recém-promovido ao adulto, é outro que mora fora da casa, com o irmão Yuri (pivô do sub-17), mas eles também vêm para as refeições.

Só que a comida deixada por Marilda nem sempre sobrevive à tarde.“Eles comem muito! À noite, às vezes ligam dizendo que está faltando mistura. Aí tenho que mandar pizza. No mínimo dez! A rotina de treinos aumentou, então eles comem o dia inteiro”, revela Fran. Segundo ela, o consumo diário é de cerca de 10kg de carne e outros acompanhamentos, além de uma caixinha (de um litro) de leite por cabeça, por dia! Conheça, a seguir, a rotina dos dragõezinhos, contada por Francine.

De manhã, todo mundo de pé
“Os que ainda não terminaram o colegial, acordam cedo para ir à escola. A van vem buscar, faz parte da nossa estrutura, o Vini (Vinicius Orti, auxiliar administrativo) cuida disso. Já gritam ‘A van chegou!’, é uma bagunça. Vira uma correria. Saem comendo o pão, sempre atrasados. Os que não estudam têm treino de manhã, às 9h30. Não fica ninguém aqui de manhã! Se vejo um menino passando, que não foi à aula, já pergunto: ‘Por que está aqui?’. Quem não vai à escola está fora do time. Eu e o Biro [Flávio Biro, também do quadro administrativo] acompanhamos. Se chegar atrasado, a diretora liga e eles ganham uma advertência. Eles já faltam mais do que os outros alunos porque viajam para jogar. Colocamos regras para não perdermos a rédea.”

De vez em quando alguém se lembra da pia...
De vez em quando alguém se lembra da pia…

Hora do almoço e cochilo
“A partir do meio-dia, eles começam a chegar. Desesperados para o almoço! Eles são unidos. Comem na mesa juntos. Depois do almoço, eles têm essa rotina do jogador de basquete: dormir! Todo dia! Ô vida difícil…” (risos)

Aqui é trabalho!
“Às 15h30, tem academia. Os que estão machucados vão na fisioterapia. Depois, treino. O sub-17 treina primeiro. Quando tem adulto, o sub-19 é depois, com alguns do sub-17, que treinam duas vezes!”

Administração da bagunça
“Pense num monte de meninos deixando coisas fora do lugar! Aí, colocamos multa para quem deixar coisas em área comuns. Para eles manterem a ordem. Só podem pegar a peça de volta pagando R$ 5. Fizemos uma caixinha para depois fazermos alguma coisa em conjunto.”

Saudade de casa
“Ano passado tive um problema com um menino do Sul. A família não tinha condições para vir vê-lo. Ele ficava triste, chorava, e o Bráulio [diretor] deu uma passagem de presente para ele ver os pais. Às vezes é preciso voltar para casa, para ver a família e os amigos que deixaram lá. Eles sentem muito a falta da família. Já teve quem não conseguiu ficar, um menino que nunca tinha saído de casa. Levei para passear, conversei com ele, tentei convencê-lo, mas ele não quis. Ficava quietinho no quarto, não se relacionava com os outros.”

Disciplina
“Menina não pode entrar, nem bebida alcoólica. Cada um tem a sua chave. Eles têm que estar aqui às onze da noite. Estão nessa fase das meninas, na escola, na rua, nos jogos. Nos jogos deles só tem menina!”

Papo com os irmãos Vezaro: liberdade para dar conselhos
Fran em papo com os irmãos Vezaro: liberdade para dar conselhos

Conselheira
“Tenho intimidade com eles, brinco, falo das meninas, de música. Eu converso bastante com eles. Digo que têm que pegar exemplos positivos, de atletas referência, como o Larry. Tem que gostar de treinar, se esforçar. Quando vejo o jogo, critico. Eles apostam pizza comigo, tudo pra eles é pizza! Mas eu provoco que eles vão perder para estimulá-los. Eu falo quando um está individualista, quando reclamam com juiz. Acham que já são adultos! Querem reclamar com técnico… Não estão nessa fase. Eles têm que baixar a cabeça, ouvir e saber que tudo o que fazemos aqui é para o bem deles.”

HIERARQUIA
Os mais velhos têm voz de comando para manter a ordem, principalmente o ala-pivô Biloca — ele e o armador Rafael são os únicos remanescentes da “turma 2013”. Ele promete fazer a caixinha de multas render.Cada quarto tem um líder. No meu, quando deixam coisa no chão, jogo no corredor ou em cima da cama do moleque. Por enquanto, a caixinha não está cheia porque não estou cobrando as multas ainda”, adverte. O jovem reconhece o aperto de ficar longe da família e enaltece a união do grupo. “É difícil visitar a família. Quando posso, eu vou. Mas a gente tem que se acostumar com a saudade, se adaptar, pois escolhemos isso. Aqui se tornou uma família. É com essa molecada que a gente acaba tendo mais vínculo”, conta.

MIRANDO O ADULTO
Ter a experiência de conviver com os astros do time principal, e aprender com eles, é o objetivo dos garotos. “Eles se sentem especiais quando treinam no adulto. Pensam: o Guerrinha que escolheu, então tem uma coisa a mais. Mas quando ouvem alguma coisa que chateia, pois o Guerrinha cobra bastante, o André (Germano) não deixa eles caírem. Afinal, são crianças. Apesar de se acharem adultos, são crianças”, revela Fran.

CURIOSIDADES

  • Na sala da casa, há uma colchão de 1,60m de largura por 2,40m de profundidade, onde se espalham para ver TV. O colchão gigante havia sido feito por encomenda para o pivô Sidão, que passou por aqui há duas temporadas e esteve recentemente jogando em Mogi.
  • Certa vez, todos saíram para treinar e deixaram a TV ligada. Resultado: ficaram dois dias sem o aparelho. E a senha da internet é trocada, às vezes, como pegadinha — obra do assessor de comunicação, Caio Casagrande, ou do diretor técnico, Vitinho Jacob, que são mais linha dura, segundo eles, para a molecada não folgar. Mas logo liberam o wi-fi.
  • A administração do vestuário também é por conta dos jogadores. E vira uma confusão sobre quem é o dono de cada peça de uniforme. Das meias, já desistiram! Elas servem para todos os pés!
  • De vez em quando, um agrado. “Eu peço para a Tia fazer um bolo pra eles, uma gelatina… Quando tem aniversário, tem alguma coisa. E estou planejando uma festa junina”, contra Fran, derretida.

Bronca na hora certa, mas sobretudo muito carinho. É assim que o futuro do basquete de Bauru vai crescendo.

Abaixo, um belo clique de Leandro Mello, gentilmente cedido pra reverenciar essa guerreira.

Por Fernando Beagá

Mineiro de Ituiutaba, bauruense de coração. Formado em Jornalismo e mestrando em Comunicação Midiática pela Unesp, atuou por 16 anos na Editora Alto Astral, onde foi editor-chefe e responsável pela implantação e edição das revistas esportivas. É produtor de conteúdo freelancer pelo coletivo Estúdio Teca. Resenhou 49 partidas da Copa do Mundo de 2018 para Placar/Veja. Criou o CANHOTA 10 em 2010, a princípio para cobrir o esporte local (ganhador do prêmio Top Blog 2013), e agora lança olhar sobre o futebol nacional e internacional.

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