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Parabéns, Peixe!

O Santos Futebol Clube comemora 100 anos e o futuro jornalista Marcio Martinele comemora a data, na seção FALA, UNIVERSITÁRIO!, homenageando seu time de coração. Vale a pena ler.

Tributo ao Centenário

Por Márcio Martinele

Tentar entender alguém que nasce nos anos 80 e escolhe um time como o Santos para torcer não é tarefa fácil, por mais influência que o pai exerça sobre ele. Por que vou seguir aquele que a minoria segue, que pouco conquistava desde então? Questões complexas quando falamos de futebol, esporte que envolve muito o fator títulos. Talvez ser santista é fruto de uma vontade natural em ser subversivo à sociedade; o diferente, o “do contra”, juntamente com um pouco daquilo de desejar a vitória do lado mais fraco, para que a alegria venha redobrada ao final da partida e a gozação mais prazerosa nas mesas de bares.

Para exemplificar esta situação, citarei um domingo nublado de clássico no Paulistão 2006, dia 12 de mês carnavalesco; a alegria comia solta entre corintianos que acabavam de comemorar o Brasileirão do ano anterior, além de terem um timaço com jogadores em seus melhores momentos: Marcelo Mattos, Ricardinho, Roger, Nilmar, Tevez e MSI… Já o Santos tinha Júlio Manzur e Domingos na zaga, Neto na esquerda, Tabata vestindo a 10 e Reinaldo como “homem gol”. A expectativa era de um novo 7 a 1 para o Timão, por mais que a imprensa escrevesse que “clássico é clássico…”. Eis que o arquiteto Luxa “superlota” o meio de campo com volantes, coloca três zagueiros e não deixa o Corinthians evoluir. Vanderlei faz propositalmente o jogo ficar tão feio quanto o time que tinha em mãos. O melhor do “nó tático” surge quando Reinaldo sente dores e é substituído por aquele que ninguém sabe que fim levou: Geílson, que aos 33 minutos do segundo tempo recebe lá do campo de defesa um grande tijolo de Fabinho, ganha no corpo de Betão, deixa Marinho pra trás e com uma categoria além de sua pessoa “toca” no canto esquerdo de Marcelo. Santos 1 x 0 Corinthians. Só o bíblico Davi sabe o que sentiram os santistas naquele dia; a partir daquele jogo nada poderia tirar o título do Peixe.

Com o perdão do pulo cronológico, voltemos ao passado mais distante. Iniciei minha paixão pelo Santos de uma maneira estranha: perdendo… Foi no Brasileirão de 1995, quando vi aquele time “bem arrumado” chegar às finais. Eu era pequeno demais pra lembrar de detalhes dos jogos, mas impossível não guardar em mente “o cara” que reunía velocidade, habilidade, técnica e classicismo em uma mesma jogada; o legítimo “camisa 10”, o G10, cujo apelido serviria perfeitamente para o momento alvinegro: Giovanni, o Messias. Sem dúvida, era ele o homem que traria de volta a fé praiana. Infelizmente, na final, contra o Botafogo, Márcio Rezende de Freitas era fariseu, romano e Pôncio Pilatos em um só juiz, condenando o nosso salvador e todo time a mais sete anos de jejum de títulos importantes. Um ano depois, Giovanni foi vendido ao velho continente e a vida de um santista continuava…

Há quem diga que esse fracasso foi o mais triste na vida de um peixeiro. Aliás, com certeza foi, mas somente para aqueles que já tinham certa idade na época, o que não era o meu caso. Para mim, não foi pior do que o Paulistão de 2001. Depois de empatar o jogo de ida contra o Corinthians na semifinal, o Peixe dependia de outro empate para jogar a decisão contra o Botafogo de Ribeirão Preto. Isso até Gil receber na esquerda, deixar André Luiz no chão e cruzar. Na sequência do lance, Marcelinho Carioca fez uma finta de corpo e deixou Ricardinho livre para definir o marcador, aos 48 minutos do segundo tempo! Corinthians 2 x 1 Santos. Inexplicável para um garoto que dessa vez tinha 12 anos e já sabia raciocinar a ligação entre tragédia e a angústia dos dias seguintes.

E por falar em angústias, só delas vivemos de 1985 a 2001. Neste período, o Peixe ganhou um Torneio Rio-São Paulo em 1997 e uma Commebol em 1998… Quase nada para um time como o Santos. Eis que surge uma nova era: 2002. O ápice na minha vida como admirador do futebol. Como explicar um time montado pra brigar, no máximo, por uma vaga na Mercosul (hoje Sul-Americana) ser campeão brasileiro atropelando todos na fase mata-mata? Mais uma vez, o Santos estava vestido de Davi, de onze Davis. Um santista jamais esquecerá da tarde de 15 de dezembro de 2002, com Fábio Costa; Maurinho, André Luiz, Alex e Léo; Paulo Almeida, Renato, Elano e Diego; Robinho e Alberto e o Rei da Selva no comando. A nação alvinegra perde a virgindade com estilo; Léo, Elano e Robinho estavam dopados de Viagra e, como disse no começo do texto, a glória aparece de maneira redobrada. Os Meninos da Vila estavam de volta.

Hoje, 14 de abril de 2012, a praia de Santos está imprópria para outro escudo. São 100 anos de história que ultrapassa a área futebolística. Temos um himeneu perfeito: técnico vencedor, equipe aprazível e, de lambuja, como diria LAOR, um champanhe borbulhante e explosivo (Neymar) com um vinho Bordeaux quieto e introspectivo (Ganso). Irônico que há 10 anos formava-se este embrião que iria esmerilhar somando arte e eficiência em véspera de centenário. Tem algo no DNA deste time que, vira e mexe, eles ficam bons. Irônico também esta equipe ainda manter sua tradição de eterna inovadora, resistindo ao conservadorismo, com seus moleques inquietos e infantis, tratando a bola como um simples brinquedo. Como escreveu Alberto Helena, o Santos vive “na contraposição das duas ideias básicas do futebol, quiçá da vida: a rebeldia contra o estabelecido; o ataque contra a defesa; o novo e o velho, ambos sempre eternos”. Parabéns, Nação Alvinegra.

Márcio Martinele é estudante de Jornalismo da Universidade do Sagrado Coração e atua na rádio Auri-Verde 760AM