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Especialista em marketing esportivo avalia cenário do Bauru no basquete

Rafael Plastina, especialista em marketing esportivo, comenta cenário do Bauru Basket

BauruDepois de semanas de incertezas sobre como seria o Bauru Basket para a temporada 2016/2017,  tudo parece estar se ajeitando. Esse silencioso trabalho de bastidores resultou na manutenção da base do elenco, em dois reforços pontuais (o armador Valtinho e o pivô Shilton), além de reestruturação do plano de sócio-torcedor e de novas estratégias para fatiar o bolo de patrocínios. Enfim, o Dragão seguirá forte e tem apelo para atrair investidores, sobretudo regionais, ligados à comunidade em que o time está inserido. Esse diagnóstico é de Rafael Plastina, especialista em marketing esportivo e gestão esportiva, que concedeu uma entrevista muito bacana ao Canhota 10.

Na temporada 2015/2016, foram 50h de exposição na TV (aberta/fechada) e R$ 27,2 milhões em mídia espontânea. O time tem mais de 70 mil seguidores em sua fanpage no Facebook e faz um bom trabalho de marketing digital. Na temporada 2016/2017, vai disputar o Paulista (produto da RedeTV), Liga das Américas (é o atual vice; vai passar no Sportv) e NBB (atual vice; Sportv, RedeTV e webTV da Liga). São números/argumentos significativos, a ponto de o Bauru Basket ser atrativo mesmo nesse período de crise?
Entendo que sim. Fazer um bom trabalho no digital é fundamental. É garantia de acesso ao fã, facilitando ações de ativação e promoção. Por outro lado, é preciso entender as dimensões da modalidade, dos eventos e dos clubes participantes. No caso em análise, temos uma base muito forte na cidade. Algo que entendo muito que seja excelente. É preciso focar nas empresas da cidade e da região. Muitos podem entender isso como ruim, mas, infelizmente, essa é a realidade. Não temos um país seguidor e praticante de esportes. Somos sim, seguidores de sucesso, de medalha, pois, quando um brasileiro vence no esporte aparece na grande mídia. Isso é um fato e dificilmente mude no curto prazo, talvez nem no médio. Por isso, insisto que ter uma base forte na cidade, na região, é fundamental para a conquista de patrocinadores, talvez isso limite valores de patrocínio, mas, por outro lado, pode trazer relações de parceria mais duradouras.

A intenção é fatiar a cota máster. Na sua visão, isso dificulta (pela divisão de visibilidade) ou facilita (pelo investimento menor)?
Se a principal entrega for a mera visibilidade, sim, haverá perda de exposição. Mas como você expôs acima, a entrega hoje vai muito além da visibilidade. Neste particular, cabe à criatividade do clube, seu departamento de marketing e do patrocinador também, em criar entregas mais 360 graus, mais digitais, mais relacionamento e experiência de marca. Eventual perda de exposição de mídia pode sim ser substituída por grandes ações de ativação, inclusive sem grandes custos de produção, como no passado. Além disso, com as transmissões digitais, pode-se gerar muito conteúdo exclusivo para os patrocinadores, ou um patrocinador em especial.

Fotos: Divulgação
Fotos: Divulgação

Mesmo o time tendo alcance nacional/internacional, o fato de Bauru estar no Interior influencia de alguma forma a captação de patrocínios?
“Eu vejo o interior como força. Claro que há limitações por isso, mas neste caso é mera leitura do copo meio cheio ou meio vazio. Quanto ao tamanho da visibilidade, é preciso esclarecer que o alcance pode até ser internacional, por conta da transmissão web. É preciso ver essas audiências e a forma de medir esse alcance, pois os patrocinadores não são bobos, eles entendem muito de mídia. Eles sabem, por exemplo, que a TV por assinatura atinge pouco mais de 50 milhões de pessoas em um país de 200 milhões. A RedeTV! tem sérios problemas de cobertura. O trabalho que a Liga tem feito para dar visibilidade ao evento é fantástico, talvez o melhor de todas as ligas, mas nosso sistema tem falhas, é um fato. Para fechar, temos pouco mais de 100 milhões de usuários de internet no Brasil. Belo número, mas a qualidade da conexão é ruim. Isso inibe a audiência por esse meio. Esse cenário deve mudar, deve melhorar. O positivo é que a Liga está bem posicionada e profissional. Isso também é um fato. Nesta linha, os clubes devem usar suas fortalezas para pegar carona nessa evolução.

O Novo Basquete Brasil chega a sua nona temporada com autonomia esportiva, é parceiro da NBA, mas ainda vê seus clubes com muitas dificuldades de sobrevivência. Que avaliação você faz do produto NBB? E por que essa discrepância de liga forte, times fracos?
Honestamente, não sei se a Liga é forte, rica. Até onde sei ela está se estruturando. Fato que tem melhorado, sim. Conheço os executivos. Sei do empenho deles em fazer algo relevante nesse mercado. O que é fato também é que nosso mercado é fraco, por todos os motivos que você já conhece. Logo, a única saída é trabalhar duro. Um exemplo, que reforça o que eu digo é a CBF versus os clubes. Ela sim é rica, sem dívidas. Os clubes são pobres, fracos. O que é diferente é que os clubes movimentam muito dinheiro. Isso é financeiro, não é riqueza. Ao contrário, salvo engano, apenas o Flamengo tem conseguido diminuir suas dívidas sistematicamente nos últimos anos. Posso afirmar que a Liga vai retornar os resultados para os clubes, até mesmo pela cultura da NBA. Ela sabe que precisa de clubes fortes, estruturados, profissionais. Tenho muita fé nisso e na Liga também.

Até que ponto uma medalha olímpica pode impulsionar o crescimento do basquete no Brasil e atrair investimentos?
Uma medalha impulsiona sim. Seguramente, teríamos mais crianças interessadas pelo jogo, pelo esporte, pelo basquete, mas isso morre. Morre porque não temos estrutura para absorver essas crianças. Até traz mais investidores também, mas eles saem na mesma velocidade que o exemplo não é dado. No caso do basquete de hoje, talvez possamos ter uma realidade diferente. Na minha visão, precisamos investir na base, na escola, na base, na criança. Neste particular a NBA pode ser usada como inspiração, como sonho, como futuro para atrair essas crianças. Acredito nisso, não somente para o basquete, para o esporte brasileiro como um todo. Acredito tanto que se tivesse uma oportunidade de fazer algo relevante com o esporte de base, largaria tudo e abraçaria essa causa. Enfim, a medalha é consequência, não causa para o fomento do esporte no coração da criança.

 

Rafael Plastina, 43 anos, é sócio-diretor da Score Sport Business (desde 2002) e da Sport Track Inteligência (desde 2006); foi diretor de inteligência e estratégia da Dream Factory (2014-15); passou pela Nielsen, como diretor da divisão de esportes (2012-13); Informídia, como diretor de marketing, comercial e desenvolvimento da (2004-11). Além disso, atuou no Vitória da Bahia como gerente de marketing (2002-03). Professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan, da Anhembi Morumbi, e IESB, de Brasília. Antes de iniciar sua carreira no marketing esportivo, formou-se em 1995 em direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA). É mestre em Administração e Marketing Esportivo pela Ohio University , dos EUA (2000-01), e em Marketing pela Escuela Superior de Marketing y Administración de Barcelona, ESMA (1998-99).

 

Por Fernando Beagá

Mineiro de Ituiutaba, bauruense de coração. Formado em Jornalismo e mestrando em Comunicação Midiática pela Unesp, atuou por 16 anos na Editora Alto Astral, onde foi editor-chefe e responsável pela implantação e edição das revistas esportivas. É produtor de conteúdo freelancer pelo coletivo Estúdio Teca. Resenhou 49 partidas da Copa do Mundo de 2018 para Placar/Veja. Criou o CANHOTA 10 em 2010, a princípio para cobrir o esporte local (ganhador do prêmio Top Blog 2013), e agora lança olhar sobre o futebol nacional e internacional.

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