Conteúdo da seção na gaveta

Homenagem a Isaías Ambrósio, o Senhor Maracanã

O funcionário mais antigo do Maracanã morreu ontem (11/1), aos 84 anos. Estava morando em Niterói, depois de uma temporada em Bauru, onde cresceu. Para homenageá-lo, republico reportagem que fiz com ele em 2008, para a 94FM Revista. A foto é de Luis Cardoso e está pipocando na internet sem o devido crédito.

Memória viva

Isaías Ambrósio cuidou da história do Maracanã por décadas e hoje goza merecido descanso em Bauru

A foto que todos os sites copiaram, muitos sem dar crédito ao fotógrafo Luis Cardoso, meu parceiro nesta reportagem

A denominação “Senhor Maracanã” estampou a edição de 17 de fevereiro de 1990 de La Gazzetta dello Sport, principal diário esportivo da Itália. A página, enquadrada e enviada pelos italianos, na ocasião, é apenas uma das lembranças do senhor Isaías Ambrósio. Ele é um importante capítulo da história do mais famoso estádio do mundo. Nascido em 6 de janeiro de 1927, em Pirajuí (veio ainda bebê para Bauru), hoje curte a aposentadoria em sua confortável casa no bairro Mary Dota [à época, antes de voltar para o estado do Rio]. Quando garoto, torcia para a Lusitana, que deu origem ao Bauru Atlético Clube. “Hoje, simpatizo com o Noroeste e gostaria de conhecer o Alfredo de Castilho”, revela.

A história de Isaías com o estádio começou em julho de 1948, quando teve a oportunidade de trabalhar na construção do que seria o principal palco da Copa do Mundo, dois anos depois. Atuou também como telefonista e segurança e morou lá alguns anos. Bom de prosa, ofereceu-se para ser guia turístico do local. Durante cinco décadas, recebeu visitantes, celebridades e chefes de Estado, tendo na ponta da língua várias histórias do “maior do mundo”, inclusive a mais triste delas. “Eu estava na final da Copa de 1950. Bigode [zagueiro da Seleção] era um carniceiro, batia em todo mundo, mas não fez nada no lance do gol. Gigghia passou por ele como quis. Foi triste mesmo!”, relembra.

Isaías voltou para Bauru em 2004, depois lutar contra problemas de saúde. Ele sofreu um acidente vascular cerebral em pleno Maracanã, diante de turistas, ao saber que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, havia sugerido em uma entrevista demolir o estádio. “Estava triste no Rio e achei por bem terminar meus dias aqui, onde começou a minha vida”, relata. Passados o susto e a desilusão, ele voltou a sorrir. O Maraca foi reformado para o Pan-Americano. Na reabertura, em janeiro de 2006 (um clássico entre Vasco e Botafogo), foi convidado para a festa. “Olhando o Maracanã do gramado, a lágrima escorreu”, conta. A paixão é tanta que ele sempre afirmou que gostaria de ser enterrado no meio do campo. Diante da negativa do chefe, ganhou em contrapartida outro presente: seu segundo casamento, com Zuma, foi celebrado nas dependências do estádio. Mesmo local onde seu nome está eternizado com uma placa, ao lado de feras como Zico e Didi.

O crachá que o Senhor Maracanã apresentava aos visitantes: poliglota

Funcionário vivo mais antigo da Suderj (Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro, órgão que administra o estádio), Isaías orgulha-se do seu número de registro, 00009. Pai de seis filhos (“Todos bem de vida, graças a Deus”), recebeu duas importantes homenagens em 2000, ano do cinquentenário do Maracanã: o título de cidadão do Estado do Rio de Janeiro, por indicação do deputado Roberto Dinamite, e a medalha de mérito Pedro Ernesto (a mais importante comenda do município), requerimento do vereador Agnaldo Timóteo. Nenhuma delas, porém, mais significativa do que seu sorriso, o de um homem realizado.

Pet, aos 43: Fla tri estadual em 2001

Para comemorar os dez anos do golaço de Pet, a seção Na Gaveta relembra texto do jornalista Fernando BH originalmente publicado na revista Tributo Esportivo Edição Histórica 6, da Editora Alto Astral.

MAIS UMA ESTRELA E… VICE DE NOVO!

Por Fernando BH

Havia muita coisa em jogo naquela tarde de maio. Para o Vasco, a chance de livrar-se da sina de vice, pois não vencia os rubro-negros numa decisão desde 1988 – a goleada de 5 a 1 pela Taça Guanabara de 2000 foi válida pela última rodada do turno, que era disputado em pontos corridos, mesmo caso da Taça Rio de 1999. Para o Flamengo, a chance de bordar a quarta estrela na camisa (cada uma delas corresponde a um tri carioca – critério abandonado em 2004, quando ficou apenas a dourada do Mundial).

Some à atmosfera do Maracanã a vitória do Vasco na partida de ida, a ausência de Romário, contundido, o carisma de Zagallo, a falastrice de Eurico Miranda… Do lado flamenguista, Edílson, artilheiro do campeonato, e seu desafeto, Petkovic, o articulador das jogadas. Do lado vascaíno, a velocidade de Juninho Paulista e Euller e o oportunismo de Viola.

O Vasco começou melhor a partida e poderia ter confirmado o título não fossem duas importantes defesas de Júlio César. Primeiro, defendendo chute de Juninho, que arrancou do meio-campo driblando a defesa do Mengo. Depois, cara a cara com Viola, salvou com o pé esquerdo. A história começou a mudar quando Cássio recebeu de Beto na área e, ao cortar Clébson, levou a rasteira. Edílson converteu o pênalti. Juninho, porém, levou seu time tranquilo para o vestiário, ao empatar aos 40, completando jogada de raça de Viola, numa bola aparentemente perdida.

No intervalo, o Velho Lobo deve ter batido um papo com seu protetor, São Judas Tadeu.

Só pode ter sido o padroeiro das causas perdidas quem inspirou os inimigos íntimos a se entenderem em campo: Petkovic ciscou pela esquerda e cruzou na medida para o Capetinha completar de cabeça. Faltava um para o título, mas o Vasco se impôs. Novamente o santo agiu, soprando a cobrança de falta de Juninho – sempre ele – que parou no travessão. E, certamente, concedeu poderes celestiais a Júlio César, que operou milagre em finalização de Euller.

Mesmo próximo o fim do jogo, os vascaínos ainda não gritavam “É campeão” a plenos pulmões. A prudência ganhou sentido quando Edílson sofreu falta na intermediária. Praticamente do mesmo lugar em que Rodrigo Mendes fez o gol do título de 1999, o que sugeria um chute forte, talvez de Beto. Mas coube a Pet lembrar Zico, encobrir a barreira e colocar a bola no ângulo. Foi o décimo gol de falta dele com a camisa 10 rubro-negra. Hélton se esticou todo, mas, essa nem São Judas Tadeu pegaria.

FLAMENGO 3 x 1 VASCO
Maracanã, no Rio de Janeiro-RJ – Final do Campeonato Carioca 2001 – Árbitro: Léo Feldman – Público: 60.038 – Gols: 1ºT: Edílson (23), Juninho Paulista (40); 2ºT: Edílson (8), Petkovic (43).
Flamengo: Júlio César; Alessandro (Maurinho), Fernando, Juan e Cássio; Leandro Ávila, Rocha, Beto (Jorginho) e Petkovic; Reinaldo (Roma) e Edílson. Téc: Zagallo.
Vasco: Helton; Clébson, Odvan (Geder), Alexandre Torres e Jorginho Paulista; Paulo Miranda, Fabiano Eller, Pedrinho (Jorginho) e Juninho Paulista; Euller e Viola (Dedé). Téc: Joel Santana.

Depoimento: em entrevista ao colega Marcelo Ricciardi, Pet declarou que só se deu conta da importância do gol depois de algum tempo. “Até hoje aqueles momentos passam pela minha cabeça como se fosse um filme. Já joguei em outros clubes com torcedores fanáticos, mas a torcida do Flamengo foi além disso. Sei que todos eles terão sempre um carinho muito grande por mim.”

Massa: “Minha trajetória não foi construída pensando em Senna”

O crédito da foto é meu - e pedi para um colega segurar o gravador...

Uma sexta-feira à tarde de novembro (dezembro?) de 2006. Eu, no trabalho, quando liga o amigo Júlio Penariol, do Bom Dia. Alerta para entrevista coletiva de Felipe Massa em Botucatu no dia seguinte. Topei na hora: o material seria útil para o guia 2007 da Fórmula 1, que faria na Alto Astral, e também para a 94FM Revista, que eu editava na época.

À vontade, sem veículos das capitais por perto, Felipe falou bastante. Criticou a Stock Car, que não revela talentos, lamentou a pouca receptividade de Bauru para seu ‘Desafio das Estrelas’ – que mudou-se para Florianópolis – e cutucou as pessoas que não acreditavam nele (“Não quero chegar nelas e dizer ‘Tá vendo?’. Tenho carinho pelos que torceram”).

Terminada a coletiva, ainda cercado pelos repórteres, seguiu solícito. Foi nessa hora que perguntei a ele sobre a inevitável lembrança de Ayrton Senna após a vitória histórica em Interlagos.

Sem fazer média com a imagem do eterno ídolo de milhões de brasileiros, cravou: “Eu era muito pequeno quando o Senna morreu. Minha trajetória não foi construída pensando nele. Nunca corri com essa influência. Eu gostava de correr porque meu pai corria. Na minha trajetória, o Schumacher me ajudou muito mais, pelo fato de correr ao lado dele”.

Um ano depois, em uma coletiva após evento do Unicef, Felipe revelaria uma “mágoa” com Senna. “Na época, aquilo me chateou bastante. Eu acompanhava o Piquet e o Senna, mas era muito fã do Ayrton. Eu pedi o autógrafo e ele virou as costas para mim“, contou aos repórteres, na ocasião.

Não há contradição entre as falas de 2006 e 2007. Massa não nega Senna como ídolo – apenas como referência em sua formação de piloto.

Pelé, 70

Nascido em 23 de outubro – e registrado, mais de um mês depois, como do dia 21, Pelé está comemorando 70 anos de vida. E, merecidamente, tem sido reverenciado por toda a imprensa, com matérias ricas em detalhes de sua vida. O Bom Dia trouxe ótimo material hoje (22/10), que se extenderá até domingo. De minha parte, reproduzo texto que escrevi para uma revista especial da Editora Alto Astral (Série Grandes Craques) sobre o Rei. Na ocasião, trouxe os melhores trechos de uma entrevista coletiva de Pelé, da qual participei, e resgatei declarações dadas por ele à Folha de S. Paulo em 1974. Confira.

Série Grandes Craques 1, Editora Alto Astral, capa de Wilson Monaco Jr

COM A PALAVRA, O REI

Sempre que Pelé se manifesta, todos querem ouvir sua opinião

Pelé tem uma agenda apertada. Por isso, cada aparição vira uma oportunidade de ouvi-lo, saber o que pensa o Rei sobre seus súditos – afinal, qualquer ser envolvido com o futebol está abaixo dele. As declarações a seguir, ele deu em uma coletiva em abril de 2007, quando deixou recados importantes.

LEGADO
“Para quem não me viu jogar, é só ver o Pelé Eterno. Dá pra ver o que o Pelé fez. De vez em quando eu assisto e penso: esse cara jogava pra caramba!”

NOVO PELÉ
“Vai ser difícil nascer um novo Pelé. Meu pai e minha mãe já fecharam a fábrica!”

SER EXEMPLO
“Na ocasião do milésimo gol, eu tive a felicidade de pedir mais escolas para as crianças. Acho que todos entenderam a mensagem, não foi demagogia. Pena que a situação da educação piorou. Não devemos parar, temos que lutar. Eu quero dar de volta às crianças tudo o que o futebol me deu. Para isso, eu tento errar o mínimo possível na minha vida. Todos somos humanos, passíveis de erro. Conselho é fácil de dar, mas exemplos, não.”

AJUDAR O BRASIL
“Uma vez que fui à África, num evento da Copa de 2010, a convite do Mandela, ele me perguntou como um país que fala uma língua só, rico e maravilhoso, tem gente morrendo de fome… Ele disse que tinha que falar em várias línguas e dialetos para seu povo entendê-lo. Tenho o sonho de colaborar com meu país. E falta muita coisa pra eu realizar na minha vida. Espero que Deus me dê tempo e saúde para isso.”

SOBRE A COPA DE 2014
“É bom os torcedores saberem que não é pelo fato de a Copa ser no Brasil que vamos ganhar. Será muito difícil. E o único Mundial que tivemos aqui, perdemos…”

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PELÉ DOCUMENTO
Em entrevista a Paulo Matiussi, para caderno especial publicado pelo jornal
Folha de S. Paulo sobre ele em setembro de 1974, o Rei fez declarações para a posteridade:

“Nunca pensei em ultrapassar os limites da lógica. Procurei apresentar um futebol objetivo. O resto, só Deus pode explicar.”

“Em 1970, jogamos com espírito de equipe, sabedores de que o conjunto era mais importante que a necessidade de afirmação pessoal.”

“Sei que nesta nova fase da minha vida [após despedir-se do Santos] terei bons e maus momentos.”

“Todos sabemos que o doping existe. Muitos foram dopados, outros se deixaram dopar, por ignorância.”

“Nunca me preocupei com a compra de árbitros. Meu negócio sempre foi jogar.”

“Quando menino, tinha dificuldade em chutar com a esquerda e cabecear. Aprendi a matar a bola no peito e a fazer outras coisas através dos treinos seguidos e puxados.”
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Foto na homepage: Reprodução/Luiz Paulo Machado

Entrevista com Zenon

Reprodução TV Século 21

Papo bom não se perde. Falei com Zenon em novembro de 2008 quando fazia revista especial sobre o craque Zico, seu contemporâneo. Gente boa, o papo no telefone rendeu. Campeão brasileiro pelo Guarani em 1978 e camisa 10 do famoso Corinthians dos tempos da Democracia, ele ainda cultiva seu vistoso bigode e atua como comentarista esportivo da TV Século 21, de Campinas. Como tal, conversou com propriedade sobre futebol. A certa altura da conversa – ao contrário da boleirada de hoje, cada vez mais óbvia e careta – falou de si sem parecer arrogante. Tivesse maltratado a bola, seria caso de internação. Mas jogou muito. Confira as respostas que sobreviveram ao tempo.

Você concorda com (grande) parte da crônica esportiva que diz que o nível técnico do futebol brasileiro é sofrível?
De forma nenhuma. Temos um grande número de bons jogadores no futebol brasileiro. É inegável que os melhores estão na Europa, mas não concordo com os que falam que o nível está muito abaixo daquele da década de 90. Só não gosto da fórmula de disputa, que só favorece os grandes clubes. Os times médios jamais terão oportunidade de disputar o título.

Você acha que os pontos corridos vão estrangulá-los?
Claro que sim! Eles nunca terão o gosto de disputar de igual para igual com os grandes clubes. A fórmula de pontos corridos favorece os clubes estruturados e que têm uma cota maior da televisão, realizam grandes contratações e têm elencos fortes. Nunca se verá um time de porte médio brigando pelas primeiras posições.

Você não pensa em ser treinador?
Já recebi convites. Mas hoje vivo um momento gostoso na vida, pois comento esportes e ainda posso bater uma bolinha no final de semana. Jogo pelos masters do Corinthians e pelas seleções paulista e brasileira. Tudo isso me deixa com a alma feliz e no momento não penso em trocar essa vida para virar treinador. Mas essa possibilidade também não está descartada… Eu domino muito fácil a função de comentarista porque eu tive a prática durante 20 anos, estudei futebol, sou formado em educação física e me formei técnico de futebol pelo sindicato de técnicos. Então, conhecimento eu tenho de sobra. Mas ainda é cedo para abraçar essa carreira.

Com a correria do futebol de hoje, o Zenon teria o mesmo bom desempenho?
Mais do que antes. Com esse trabalho que existe hoje, específico para cada atleta, de acordo com suas características, Pelé faria cinco mil gols. O Garrincha jogaria muito mais. E eu também, se tivesse toda essa força. Com a técnica que eu tinha e com esse trabalho físico de hoje, eu seria muito mais produtivo. Hoje, quem tem uma característica quase parecida com a minha é o Hernanes. Ele se aproxima muito das minhas características. Ele desarma, arma, ataca e faz gols. Hoje eu seria um Hernanes, só que com um fundamento a mais, o lançamento – coisa que ele não faz.

Entrevista com Richarlyson

Quando entrevistei Richarlyson, em sua chácara em Bauru, em novembro de 2007, ele estava no olho do furacão. Acabava da ganhar o bicampeonato brasileiro e as insinuações sobre sua orientação sexual estavam nas manchetes. No mesmo dia, a reportagem da revista Placar acompanhava a folga do jogador, que tinha a tiracolo a namorada Letícia Carlos – que acaba de acusar o goleiro Felipe (ex-Corinthians, hoje no Braga-POR) de agressão. Não demonstravam ter muita intimidade, mas o breve relacionamento rendeu capa de Playboy a ela. Eu, que não me interessava pela vida pessoal do jogador, fora falar de futebol. E o resultado desse papo - trechos que o tempo ainda não corroeu – você confere abaixo. 

Origem
“Nasci em Natal, mas com dois meses vim para Bauru. Passei praticamente toda a minha infância aqui – a não ser quando meu pai, por ser jogador, viajava para alguns clubes fora do país ou mesmo em outros Estados mais distantes. A família toda o acompanhava. Meu pai [Lela, ex-atacante, campeão brasileiro pelo Coritiba em 1985]
jogou na Udinese, da Itália, e no Standard Liege, da Bélgica. Nessas duas vezes, a família foi.”

Estilo de jogo do pai
“Meu pai era um jogador de muita habilidade, que protegia bem a bola, por ter bom porte físico. Era matador, tinha faro de gol. Essas características eu não tenho. Sou mais polivalente, me movimento bastante, marco bem, tenho impulsão boa e um chute até certo ponto bom de perna esquerda. As características do meu pai ficaram mais para o meu irmão [Alecsandro, atual atacante do Internacional].”

Experiência no exterior
“Eu estive na Áustria [Red Bull Salzburg]
. É um futebol que não é visado, mas em termos de estrutura e profissionalismo eles estão bem na frente. Mas em termos de projeção de futuro, o Brasil é sempre a melhor opção.”

Problemas no Santo André (lá foi campeão da Copa SP de Juniores em 2003)
“Minha trajetória no Santo André foi um pouco conturbada. Eu cheguei para jogar no profissional, disputamos em 2002 a Copa Federação Paulista e eu não fui bem. Como eu tinha idade para jogar a Copa São Paulo, a diretoria me obrigou a disputá-la. Acho que eles não acreditavam que eu poderia vingar. Cheguei no júnior com status, para resolver, por ser o único que atuava no profissional. E deu certo. Coloquei na cabeça que era meu último ano de júnior e o pessoal estava desacreditado, era tudo ou nada. A partir daí, tudo voltou ao normal, passaram a acreditar no meu futebol. Mas nunca pensei que ia chegar num clube grande. Eu tinha o objetivo, mas não esperava, ainda mais da forma como foi. Em 2005, após disputar uma Libertadores com o Santo André, pude escolher o clube onde iria jogar. Aconteceu tudo muito rápido.”

De meia para volante
“Joguei apenas umas três partidas como volante no Fortaleza [em 2004], com o Márcio Araújo, treinador na época. Mas ele preferia que eu jogasse mais avançado. Mas foi quando o Mineiro saiu é que surgiu a oportunidade. O Souza foi tentado na vaga, não deu certo, e não havia outro volante. O Muricy tentou comigo e deu certo.”

Muricy
“Com os jogadores ele não é ranzinza, a não ser na hora do jogo, o que eu acho certo, é o trabalho dele. Ele tem que dar o melhor. Ele pensa que tem que agir daquela forma e nós jogadores assimilamos, tanto que fomos campeões brasileiros. Mas ele conversa e brinca na hora certa. É um profissional maravilhoso e fora da profissão e o admiro também.”

Dupla com Hernanes em 2007
“Quando o Mineiro saiu, depois o Josué, houve um questionamento que o São Paulo tinha que contratar um volante urgente. Eu também achava! Eu e o Hernanes estávamos quebrando o galho e o elenco precisava de jogadores naquela posição. Mas eu sempre acreditei no meu trabalho, no meu potencial. Esse preparo que eu tive, não só dentro de campo, mas também psicológico, de querer sempre vencer, vai me ajudar a chegar onde eu quero.”

Faculdade de Educação Física
“Nas folgas, tenho que saber que alguns exercícios vão trazer fadiga muscular. Quando eu não fazia faculdade, eu não sabia que isso poderia se tornar prejudicial para o meu trabalho. Quando o Carlinhos Neves, nosso preparador, passa algum alongamento ou uma movimentação pós-jogo, eu pergunto o porquê daquilo.”

Carreira pós-futebol
“Após ser jogador, pretendo entrar na área de fitness, abrir uma megaestrutura com academia e locais para estética e reabilitação esportiva. Mas é um projeto a longo prazo, penso em jogar muito tempo ainda. Quando acabar a carreira, penso nesse projeto. Nada de ser treinador, nem preparador físico! Deixo para outras pessoas, não tenho a mínima vontade de ser.”

 
Foto da homepage: Luiz Pires/Vipcomm
Foto em família (acima, com a mãe, Maria de Lourdes, e o pai, Lela): Fernando BH

Entrevista com TOSTÃO

Esta entrevista que fiz com o craque Tostão saiu na edição 8 da revista Gol FC, em abril de 2009. O cronista fala de futebol com clareza, quase que de forma didática, para não dar brecha a interpretações equivocadas sobre o que pensa. Vale a pena conferir. Atente-se para perguntas que o tempo já desgastou (marcadas com ***), mas que as respostas lúcidas merecem apreciação.

TOSTÃO

O cronista mais admirado do país fala com a coerência e a sinceridade que o caracterizam desde os tempos de jogador

Por Fernando BH

A fala é mansa e o sotaque mineiro, inconfundível. Na conversa por telefone com Gol FC, nenhum barulho ao fundo. A serenidade é mesmo a marca de Tostão. Colunista de grandes jornais brasileiros, o doutor Eduardo Gonçalves de Andrade, 62 anos, diagnostica como poucos o nosso futebol. E, apesar de não gostar muito, também fala um pouco de sua gloriosa (e por vezes dramática) trajetória. Desnecessário desejar boa leitura quando o craque da palavra está em campo.

Por que você critica a importância que se dá hoje aos técnicos?
Que fique bem claro que eu os acho importantes, só que a imprensa supervaloriza. Uma substituição qualquer é responsável pela vitória do time. Às vezes a troca foi errada, mas o time acabou ganhando e dizem que foi mérito do treinador. A mesma coisa o contrário, quando perde e ele substitui bem. O futebol tem tantos detalhes para o pessoal se concentrar tanto no técnico… ‘O time do fulano’! Há um exagero na relação de imprensa e torcedor com o técnico.

O papel do manager não agrada a diretoria do São Paulo. Será difícil vermos Vanderlei Luxemburgo dirigindo o Tricolor? ***
Essa é uma grande qualidade do São Paulo. Um dos motivos de estar à frente dos outros. Lá, o técnico é somente técnico. Apesar de a imprensa continuar dizendo que ganha por causa do Muricy… Claro ele é bom, eficiente, conhece futebol, é sério, sabe organizar um time. Mas são coisas que todo bom técnico deveria fazer. O que não pode é achar que ganhou um jogo só porque mudou o Richarlyson dois metros pra esquerda ou pra direita.

E o que é aquela rispidez com a imprensa?
Ele não tem paciência de ficar respondendo a muitas perguntas sem sentido. Há outras que não responde porque acha que técnico não tem que dar explicações à imprensa. Aí, vai para as entrevistas mal-humorado. Dá a impressão de que não queria estar ali e tem um comportamento às vezes mal educado e agressivo. Mas há um pouco de extremismo nisso. Não é só o Muricy. Cada um tem seu estilo, mas eu noto que todos os técnicos, com algumas exceções, acham que não têm obrigação de dar explicações. Eles acham o nível das perguntas de alguns repórteres da cobertura diária ruim. Algumas vezes, eles têm razão.

Como seria o Tostão técnico?
Seria mais democrático, tentaria cativar as pessoas com a troca de informações e opiniões. Não gosto do personalismo, do extremismo, o fato de ser o grande chefe, todos obedecendo, o que é comum no Brasil. Muitos ex-jogadores não conseguem ser bons técnicos porque não conseguem passar de uma função para a outra. O Renato Gaúcho continua agindo como se fosse a estrela que era como jogador. Se eu fosse técnico, eu ia querer assistir lá de cima. Na primeira derrota do time, iriam falar que faltou comando lá embaixo (risos).

E o Dunga? Você já sugeriu que ele se demitisse… ***
Ele não deveria ter sido escolhido, por não ter experiência como técnico. Mas os resultados dele são bons e qualquer pessoa que entenda futebol pode ter bons resultados. Basta que seja uma pessoa bem informada. O Maradona, por exemplo. Todos o achavam a última pessoa capaz de ser treinador de futebol. Vi a Argentina jogar e o time é organizado em campo. O Dunga sabe como colocar um time em campo, é o que todo técnico deve saber. O fato de o Dunga ter resultados iguais aos que teria Parreira, Luxemburgo ou Muricy mostra que, mesmo que seja um técnico que não entenda nada de futebol, qualquer um que entrar ali vai ter o mesmo aproveitamento médio. O mais importante não é o técnico, ele é uma parte. O Brasil pode ser campeão do mundo com o Dunga. Mas quero enfatizar que não é a presença do técnico que vai fazer ganhar ou perder.

No caso do Maradona, a admiração dos jogadores argentinos pelo mito influencia em campo? ***
Pode ajudar, mas não sei dimensionar. Os jogadores o admiram, querem vê-lo bem, mas se a Argentina tiver sucesso, não vou achar que essa é a principal razão.

Por que o Pelé não é tão amado pelos brasileiros como o Maradona é pelos argentinos?
O Maradona encarna o que é o ser humano. Ele se expõe, mostra suas fraquezas. O Pelé é uma boa pessoa, claro, mas passou a vida toda querendo mostrar o que não é. E as pessoas percebem isso. Todos o reconhecem como maior jogador de todos os tempos, mas não têm muita admiração pela sua figura. O Pelé gosta muito de fazer média. Vai à Itália, faz média. Vai à França, faz média. No Brasil, fala outra coisa. O Maradona pode falar besteira, mas fala a mesma coisa em qualquer lugar do mundo.

Já virou lugar comum dizerem que o nível do futebol praticado no Brasil é baixo. Você concorda?
Pela saída de tantos jogadores e pelo fato de que os da Seleção, com raras exceções, estão na Europa, os jogos no Brasil são surpreendentemente bons. Bem disputados, emocionantes, os times taticamente organizados. Há um pouco de erro na comparação com a Europa. Fora uns oito times, os que sobram não são melhores do que os brasileiros. No Brasil, não há jogadores como Kaká, Xavi, Pirlo, Messi, mas há jogadores atuando aqui melhores do que muitos que estão em grandes clubes europeus. Acham tudo uma maravilha na Europa, e não é. É evidente que os melhores estão lá, mas quando se convoca uma Seleção e são chamados apenas um ou dois que atuam aqui, há mais uns quatro ou cinco no mesmo nível dos convocados da Europa. Por exemplo, temos vários goleiros aqui melhores do que o Doni.

O calendário do futebol brasileiro melhorou nos últimos anos. O que falta ser organizado nesse sentido para fortalecer os clubes?
Na verdade, melhorou porque estava um caos, um absurdo. A própria CBF chegou à conclusão de que teria que fazer alguma coisa, pois, mesmo com seus amigos políticos, Ricardo Teixeira não iria se manter no poder. Falta melhorar a estrutura dos estádios sem conforto, com gramados ruins, há a venda de ingressos desorganizada… A Copa do Brasil ser jogada pelos times que atuam na Libertadores e não se fazer Estaduais absurdos, com 20 times.

Mas acabar com os Estaduais não decretaria o fim dos pequenos clubes do Interior do país?
Os Estaduais não devem acabar, apenas serem mais curtos. Os clubes do Interior podem jogar em até cinco divisões do Campeonato Brasileiro. Os que tiverem competência e forem organizados vão subindo. E a Copa do Brasil pode passar para 128 times, aumentado apenas duas datas, incluindo mais uma fase entre os pequenos. Pode-se chegar a mil clubes! Não precisa aumentar o número de jogos dos grandes, apenas incluir fases preliminares entre os pequenos. Não há segredo nenhum.

Qual sua posição em relação à Copa de 2014?
Eu quero ver uma Copa do Mundo no Brasil desde que o dinheiro público seja gasto para trazer benefícios posteriores para a população. Que as melhorias sejam preservadas e não se invista dinheiro público reservado para assuntos mais urgentes. Assim, seria ótimo ter uma Copa. O penoso é que acontecem muitas coisas políticas, desperdício de dinheiro, como houve no Pan 2007. Disseram que o Pan era para o bem público, gastaram uma fortuna, mas não melhorou em nada a estrutura do Rio.

Com a África do Sul correndo contra o tempo e a incógnita brasileira, será difícil chegar ao nível da Alemanha 2006? ***
Não temos obrigação de fazer uma Copa moderna. É como uma pessoa sem recursos financeiros dar uma grande festa para impressionar. O Brasil tem que fazer uma coisa organizada, mas que não haja nada tão exuberante. E é um mito esse rigor da Fifa, de que tudo é perfeito. Na Alemanha, cansei de ver coisas que, se fossem no Brasil, todos iriam criticar. Estádios com problemas, centros de imprensa mal aparelhados. Em dois jogos da Seleção em Dortmund, havia jornalistas sentados no chão.

Quando você decidiu ser profissional, foi por perceber que seria diferenciado. Hoje, muito garoto acha que é diferenciado e não é…
É natural verem no futebol a chance de crescer na vida. Mesmo não tendo muito talento, o garoto acha que pode ganhar dinheiro e destaque. Se ilude com elogios antes da hora. Quando o Denílson estava prestes a ir para a Europa, eu o entrevistei. Ele disse que em pouco tempo seria o melhor jogador do mundo. Aí perguntei: ‘Mas você não acha que precisa aprender a cruzar melhor?’. Ele disse sim. ‘Chutar melhor?’. Sim. Outras perguntas, ele concordando. ‘Realmente, tenho que melhorar muito!’. Ele tinha uma habilidade extraordinária, mas não tinha vários fundamentos técnicos para ser um fora de série.

O Robinho vive falando que quer ser o melhor do mundo…
Se o Robinho tivesse consciência crítica de suas limitações, teria avançado mais. Ele é inteligente, muito melhor jogador do que o Denílson, nem se compara. Ainda tem uma grande chance de disputar o prêmio de melhor do mundo. Já o Kaká tem senso crítico, é um jogador que batalhou pelo que precisava melhorar, foi crescendo. Ele é uma exceção.

O que você espera do Ronaldo no Corinthians? ***
A expectativa é que ele jogue o que jogou no Milan, isto é, atuar de vez em quando e ter alguns momentos do grande Ronaldo que foi. Mas não dá para esperar dele regularidade, fazer muitos jogos no auge.

E, agora, mais perto da área.
Sim, em espaços mais curtos. O Romário se adaptou a isso, até não sair mais da área, tanto que jogou até os 40. Os mais jovens acham que o Romário foi sempre um centroavante. Ele era um espetáculo do meio para a frente. Tabelava, driblava.

Certa vez você disse que, na Copa de 1970, cederia sua camisa ao Romário…
Naquela posição de centroavante ele foi melhor do que eu. Não é falsa modéstia, é consciência. Ele foi o maior do mundo naquela posição. Ele e o Ronaldo.

A afirmação serve para o Fenômeno também?
Sim. Serve também para o Reinaldo, o Coutinho, o Careca… Todos centroavantes melhores do que eu, porque eu era mais meia do que atacante. Fazia muitos gols também. Mas meu forte era o passe. Jogava como joga hoje o Alex, como o jogou o Zico.

E o Zico foi melhor do que o Zidane, como foi recentemente eleito em uma enquete na TV? ***
Não acho, não. Zidane jogou mais. Eu até achava que o Ronaldinho Gaúcho iria se tornar melhor do que ele, pelo que jogou em dois anos no Barcelona. Mas o Zidane jogou muito durante dez, 15 anos. Eu vi Cruyff jogar, Platini, Zico, todos extraordinários. Mas, depois de Pelé e Maradona – e Garrincha, que é um caso à parte – o Zidane foi o melhor. Alguém pode dizer que o Zico foi mais objetivo, fez mais gols. Mas é cada um na sua função. O Zidane, como meio-campista, foi eficiente, fabuloso.

Na sua autobiografia, você afirma que a vida é curta e há necessidade de viver outras vidas (além de jogador, estudou e exerceu a medicina e hoje é cronista). Tostão tem mais algum sonho?
Dentro da minha vida, sempre desejo fazer coisas diferentes. Mas mudar de profissão, não tenho nenhum plano. De vez em quando recebo convites para voltar à TV, mas, por enquanto, estou tranquilo. Não sou de ficar correndo, fazendo muita coisa ao mesmo tempo. Prefiro fazer menos coisas e me dedicar mais a elas.

MAIS:

- O OLHO ESQUERDO
Como médico e observando os avanços da medicina, em relação ao problema que o tirou do futebol (descolamento da retina): se fosse hoje, você teria sobrevida no esporte?
Teria mais chances. As técnicas cirúrgicas são bem diferentes de 40 anos atrás.

Além do risco de sofrer nova lesão no olho, o que o impedia de jogar?
Eu perdi parte da visão do olho esquerdo. Para minha vida normal, não me atrapalha. Mas, como atleta, precisava dos dois olhos trabalhando juntos. O atleta precisa estar atento a certos detalhes. Se eu tivesse continuado, mesmo se eu quisesse, não seria o mesmo jogador, teria dificuldades, como tempo de bola. Eu não sentiria segurança.

- CRUZEIRO
Você saiu de forma conturbada do Cruzeiro, quando abriu mão dos 15% a que tinha direito. Qual sua relação, hoje, como clube e com a torcida?
Com o clube, nenhuma. E faço questão de não ter, pela minha função de cronista. Preciso ter toda a liberdade. Tenho que manter total independência. Alguns compreendem, outros não. Convidavam-me muito para eventos do Cruzeiro. Nem me chamam mais, porque sabem que não vou. Com a torcida a relação é muito boa. Me surpreendo até hoje. Onde vou, o torcedor cruzeirense me trata com carinho.

- CENTROAVANTE ARMADOR
Você impressionou em 1970 como “centroavante armador”. Como chegou a essa função?
Eu me inspirei no Evaldo, meu companheiro no Cruzeiro. Eu jogava mais atrás e o Evaldo era fora de série atuando como pivô. Quando joguei nas Eliminatórias, com o João Saldanha, eu jogava como no Cruzeiro. Já o Zagallo queria um centroavante mais próximo da área. Quando ele assumiu a Seleção, disse que eu seria reserva do Pelé, pois não imaginava que eu poderia jogar de centroavante. Não me esqueço o dia em que ele resolveu me colocar. Experimentou outros centroavantes que não foram bem – o Roberto e o Dario – e resolveu me testar. ‘Dá pra você jogar nessa posição? Não quero que fique recuando muito’. Eu disse: ‘Perfeitamente. Vou jogar como o Evaldo joga’. Individualmente, não era a posição que eu poderia render mais, mas para a Seleção foi importante.

Parabéns, Bauru!

A partir de entrevista do jornalista e historiador Luciano Dias Pires com o político/médico que inspirou a criação de Casimiro Pinto Neto, não foi difícil juntar as peças e descobrir que o legítimo Sanduíche Bauru não foi criado em 1934, como afirma equivocadamente o site oficial do sanduíche, nem em 1937, como consta em quadro no Museu Histórico Municipal. Essa reportagem a quatro mãos foi publicada na edição 17 da 94FM Revista, do final de 2007, mas não ganhou o eco merecido. Uma descoberta histórica da qual me orgulho. A foto em destaque na home é do competente Luís Cardoso.

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O que Nelson Rodrigues faria hoje?

Texto publicado no site do jornalista Marcio ABC, em outubro de 2007:

O que Nelson Faria hoje?

A vida de Nelson Rodrigues no século 21 seria muito chata. Primeiro, porque iria se irritar com o politicamente correto que predomina hoje. O cigarro, por exemplo, companheiro inseparável do anjo pornográfico: não tem mais o glamour daqueles tempos (recente pesquisa do DataFolha constatou que só 9% dos brasileiros vêem charme nas baforadas). Nelson dedicaria linhas e linhas criticando a patrulha coletiva pela saúde. “Cada um que cuide da sua”, vociferaria.

Sobre a maior tolerância a respeito da sexualidade, tenho minhas dúvidas. O conservador Nelson aprovaria casais gays em novelas? Escreveria em suas peças personagens homossexuais que não tivessem o estereótipo da promiscuidade? Acho que sim. Quem soube lidar com o erotismo tão brilhantemente como Nelson Rodrigues, haveria de saber que desde que se fez a luz o prazer não é exclusividade do encontro hetero. Resta saber se no futebol ele admitiria tal manifestação…

Aliás, resta saber se Nelson Rodrigues continuaria gostando de futebol! Seu Fluminense, apesar de atual campeão da Copa do Brasil, não inspira muitas exclamações. Afinal, o enfoque de suas crônicas sempre foi a magia do drible e o toque sutil de atletas elevados à condição sobrehumana – que o bom Thiago Neves, o 10 do Flu, está longe de alcançar. Acharia um disparate o melhor jogador em atividade no país ser um goleiro, antes aquela figura melancólica que faz até morrer grama em seu espaço de atuação. Refeito do susto, porém, reconheceria em Rogério Ceni um diferenciado e diria que Dunga tem uma miopia maior que a sua.

Quase disposto a mudar-se para a Europa, Nelson ficaria eufórico com a possibilidade de acompanhar Ronaldinho, Kaká e Robinho de perto, os que hoje mais se aproximam da condição celestial. Dia 17 de outubro, a Seleção enfrenta o Equador, pelas Eliminatórias da Copa, no Maracanã, a segunda casa do cronista. Não é mais o Escrete (termo dele que personificou a Seleção), mas continua o melhor do mundo. E sem complexo de vira-latas, pois todos os jogadores têm pedigree: são poliglotas que visitam os grandes museus do Velho Mundo. Isso também o deixaria pasmo.

No meio dessas suposições, um pulga atrás da orelha me diz ainda, preocupada, que é bem provável que ele, passional como é, visse coerência na forma de agir de Eurico Miranda. Fique bem onde está, Nelson, na eternidade. Até porque as redações foram invadidas por mulheres inteligentes, independentes e que, definitivamente, não gostam de apanhar.

21 depois dos 21

Esta noite nunca vai terminar
Texto publicado na revista Tributo Esportivo Edição Histórica 6 (tema ‘Jogos Inesquecíveis’)

Leonardo não alcança e Maurício vence Zé Carlos. Ufa!

O Botafogo chegou invicto à finalíssima. Mas, curiosamente, sem vencer nenhum clássico. Só empates contra os maiores rivais. Aliás, não vencia Flamengo, Vasco ou Fluminense no Estadual há três anos. Era um sofrimento potencializado, um pão bem amassado pelos antideuses do futebol.

E por mais que o Fogão chegasse forte àquela partida, do outro lado havia um Flamengo cheio de estrelas, nomes de Seleção Brasileira: Jorginho, Aldair, Leonardo, Zico, Bebeto e Zinho, comandados por ninguém menos que Telê Santana. Nada que amedrontasse o raçudo Paulinho Criciúma, ícone de um time vibrante e brioso. Mas, foi um jogo sofrido, bem ao estilo alvinegro.

No primeiro tempo, o Glorioso não chutou a gol. Os rubro-negros chegaram com perigo, principalmente numa cabeçada de Bebeto que Ricardo Cruz foi buscar no ângulo. Veio o intervalo e o técnico Valdir Espinosa pediu raça aos jogadores, a um grupo de poucas estrelas, mas muita experiência, principalmente os selecionáveis Josimar e Mauro Galvão – um elenco montado a dedo pelo cartola Emil Pinheiro. Mais aplicado, o Fogão matou o jogo aos 12 minutos da etapa final. Luisinho deu ótimo passe em profundidade para Mazolinha, que substituíra Gustavo. O cruzamento encobriu Leonardo, que marcava Maurício. O ponta-direita só escorou e partiu alucinado para o afago da torcida. Vestindo a mítica camisa 7 alvinegra, Maurício teve lampejos de Garrincha. A certa altura, chamou Aílton e Zé Carlos II para dançar e centrou para Paulinho Criciúma cabecear no travessão. “Uhhhh!”, ecoou a galera, lamentando o que seria o gol de seu maior ídolo, para sepultar de vez o Urubu. Depois, foi só administrar o nervosismo e aguardar o apito final, já que até o empate servia ao Glorioso.

Na geral, as lentes focavam a jovem Sonja, que ganhara fama em dezembro de 1988, quando, gandula, chorava copiosamente ao ver seu time de coração apanhar de 3 a 0 do Vasco. Aquelas lágrimas motivaram a todos no clube, que não perdeu nenhum jogo desde então até chegar ao título estadual. E como há certas coisas que só acontecem ao Botafogo, vale lembrar como o time chegou à decisão. Graças ao Vasco, algoz do ano anterior. Na última rodada da Taça Rio, bastava uma vitória sobre o Bangu, mas o 0 a 0 frustrou a todos e parecia ser mais um ano de espera, pois se o Flamengo vencesse os cruzmaltinos, ganharia os dois turnos e levaria o título por antecipação. Mas foi um ano tão mágico que o clube notoriamente azarado ganhou uma ajudinha e tanto para chegar àquela noite de 21 de junho e ganhar, com propridade, uma taça que estava escrita para ser sua.

Botafogo 1 x0 Flamengo
Final do Campeonato Carioca de 1989 – Maracanã, Rio de Janeiro-RJ – Árbitro: Walter Senra – Público: 56.412 – Gol: 2ºT: Maurício (12)
Botafogo: Ricardo Cruz; Josimar, Wilson Gottardo, Mauro Galvão e Marquinhos; Carlos Alberto Santos, Luisinho e Vítor; Maurício, Paulinho Criciúma e Gustavo (Mazolinha). Téc: Valdir Espinosa.
Flamengo: Zé Carlos; Jorginho, Aldair, Zé Carlos II e Leonardo; Aílton, Renato Carioca e Zico (Marquinhos); Alcindo (Sérgio Araújo), Bebeto e Zinho). Téc: Telê Santana.

Curiosidade: Criaram-se tramas numerológicas para dar um ar místico ao título do supersticioso Botafogo. Uma delas eternizou, através de matéria do jornalista Renato Machado, da TV Globo, que as camisas de Mazolinha (14), que cruzou, e Maurício (7), o autor do gol, somavam 21 (lembrando o tempo de jejum e o dia da final). Forçação de barra: Mazolinha vestia a 16.
Depoimento: nosso entrevistado, o técnico Valdir Espinosa, revelou que o herói Maurício jogou com o tornozelo inchado durante todo o segundo tempo. Em seu depoimento, disse ainda que sua formação tática com dois pontas e um falso centroavante (Paulinho Criciúma) confundiu os adversários.